domingo, 15 de abril de 2018
Um verso a cada passo - A poesia na Estrada Real
A Estrada
Real, tão importante para a formação do Brasil e ainda tão pouco conhecida dos
brasileiros, é revisitada neste livro em poemas emocionantes, belissimamente
ilustrados por colagens com tecidos e materiais de costura ou por bordados.
Caminhos, cidades e detalhes das margens da Estrada surgem a cada página,
coloridos, novos e ao mesmo tempo fiéis, homenagem emocionada à poesia das
ideias que ela desperta em todos aqueles que a percorrem.
Fonte:
https://grupoautentica.com.br/autentica-infantil-e-juvenil/livros/um-verso-a-cada-passo-a-poesia-na-estrada-real/467
quinta-feira, 12 de abril de 2018
Patrimônio Imaterial
Os bens
culturais de natureza imaterial dizem respeito àquelas práticas e domínios da
vida social que se manifestam em saberes, ofícios e modos de fazer;
celebrações; formas de expressão cênicas, plásticas, musicais ou lúdicas;
e nos lugares (como mercados, feiras e santuários que abrigam práticas
culturais coletivas). A Constituição Federal de 1988, em seus artigos 215 e 216, ampliou a noção de patrimônio
cultural ao reconhecer a existência de bens culturais de natureza material e
imaterial.
Nesses artigos da Constituição, reconhece-se a inclusão, no
patrimônio a ser preservado pelo Estado em parceria com a sociedade, dos bens
culturais que sejam referências dos diferentes grupos formadores da sociedade
brasileira. O patrimônio imaterial é transmitido de geração a geração, constantemente
recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação
com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e
continuidade, contribuindo para promover o respeito à diversidade cultural e à
criatividade humana.
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e
a Cultura (UNESCO) define como patrimônio imaterial "as práticas,
representações, expressões, conhecimentos e técnicas – com os instrumentos,
objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as
comunidades, os grupos e, em alguns casos os indivíduos, reconhecem como parte
integrante de seu patrimônio cultural." Esta definição está de acordo com
a Convenção da Unesco para a
Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, ratificada pelo Brasil
em março de 2006.
Para atender às determinações legais e criar
instrumentos adequados ao reconhecimento e à preservação desses bens
imateriais, o Iphan coordenou os estudos que resultaram na edição do Decreto nº. 3.551, de 4 de agosto de
2000 - que instituiu o Registro de
Bens Culturais de Natureza Imaterial e criou o Programa Nacional
do Patrimônio Imaterial (PNPI) - e consolidou o Inventário
Nacional de Referências Culturais (INCR).
Em 2004, uma política de salvaguarda mais estruturada e
sistemática começou a ser implementada pelo Iphan a partir da criação do
Departamento do Patrimônio Imaterial (DPI). Em 2010 foi instituído pelo Decreto nº. 7.387, de 9 de dezembro
de 2010 o Inventário
Nacional da Diversidade Linguística (INDL), utilizado para
reconhecimento e valorização das línguas portadoras de referência à
identidade, ação e memória dos diferentes grupos formadores da sociedade
brasileira.
Instrumentos de Salvaguarda
Bens Registrados
Bens em Processo de Instrução para Registro
Bens Inventariados
Estatísticas e Indicadores Culturais
Programa Nacional do Patrimônio Imaterial (PNPI)
Inventário Nacional da Dversidade Linguística
Conhecimento Tradicional Associado ao Patrimônio Genético (CTA)
II Seminário de Fortaleza - Desafios para o Fortalecimento da Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial
II Carta de Fortaleza
Fonte:
http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/234
Da terra brotam as bonecas de barro
Reportagem Rita de Podestá
Fotos André Dib
O Vale do Jequitinhonha possui um desenvolvimento humano —
histórico e até cultural — imensurável em gráficos e em
palavras. Um exemplo é a produção magnífico artesanato
que ganha vida em personagens e em objetos de decoração. Os trabalhos com barro
que criam as cerâmicas tão características do Vale têm origem no trabalho das
mulheres. As bonecas são as mais famosas peças das artesãs — personalidades
donas de emocionantes histórias de vida, marcadas pela superação por meio do
trabalho e do talento.
Quando se fala sobre a riqueza de uma determinada região, a princípio
pensa-se em números e estatísticas. O que muitos questionam é que indicadores
de desenvolvimento como o PIB (Produto Interno Bruto) e índices de taxa de
crescimento desconsideram fatores sociais e ambientais que são ocultados por
indicadores monetários. O resultado é a representação de um país, estado ou
região por sua produção material, ignorando riquezas humanas.
A discussão sobre o tema existe e tem sido contornada. Desde a criação, em
1990, dos primeiros Indicadores de Desenvolvimento Humano (IDH), instituições
internacionais, empresas e ONGs, buscam uma maneira de compensar, ou completar,
os indicadores monetários por sociais, ambientais, até mesmo éticos. O IDH foi
criado com a intenção de abordar o desenvolvimento humano. O índice considera
longevidade (saúde), renda e educação. Todos itens de enorme importância,
entretanto, ainda assim, deixam passar despercebidos comunidades que
contornaram seus problemas com criatividade e muito trabalho.
Se o plano de destaque for menor, as desconsiderações desse tipo de
riqueza são ainda maiores. É o caso do Vale do Jequitinhonha, no nordeste de
Minas Gerais. Uma mesorregião de cerca de 62,9 mil km², na qual vivem 977,8 mil
pessoas — de acordo com o último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) — com um PIB total que corresponde a menos de
2,0% do PIB estadual.
O que não se sabe por meio destes dados é que o Vale possui um
desenvolvimento humano — histórico e cultural — imensurável em gráficos e em
até palavras. Discursos que enfatizam a condição de dificuldades da região
desconsideram outras formas de interpretá-la como as possibilidades de leitura
que passam exclusivamente pela cultura popular. Cultura que gera renda e
desenvolvimento humano, para quem é do Vale e para quem visita a região.
LUTA E CONQUISTA
A mesorregião do Vale pode ser recortada em três partes. Alto
Jequitinhonha, que corresponde à região de Diamantina; Médio Jequitinhonha, que
representa à região de Araçuaí; e Baixo Jequitinhonha, a região de Almenara,
próxima a Bahia.
O Alto do Jequitinhonha foi um dia terra rica em ouro e diamantes que
chamou a atenção dos Bandeirantes. A primeira descoberta de ouro foi no final
do século XVII, na cidade do Serro. Com isso, nas regiões próximas a
cidade histórica de Diamantina, foram instalados os primeiros núcleos de
mineiros. Hoje é a região mais rica do Vale e apresenta melhores indicadores
humanos e econômicos, além de intenso turismo.
Já o médio e baixo Jequitinhonha era coberto por floresta Atlântica e
povoado por tribos indígenas. Nos primeiros anos do século XVII iniciou-se ali
uma busca de terras propícias às pastagens. Numa disputa entre mão armada e
flechas, os vaqueiros derrubaram a floresta. No lugar surgiu o capim colonião.
O que restou é um solo velho, cansado e surrado pelo pisar dos animais,
queimadas e estiagens.
Dessas lutas nasceram várias conquistas impulsionadas por lutas
individuais de um povo, muitas vezes, sofrido. Hoje, o Vale do Jequitinhonha
pode ser entendido como uma rica zona cultural, devido às suas diversas
manifestações: folclore, conjuntos arquitetônicos e históricos e a produção
artesanal, em palha, bambu, madeira, algodão e cerâmica. Sendo esta última, a
mais representativa e reconhecida. O artesanato de cerâmica pode ser encontrado
em museus, exposições, centros culturais, assim como em lojas especializadas em
arte popular.
Algo que não aconteceu de maneira fácil, mas devido a perseverança e
coragem de verdadeiras guerreiras de mãos fortes e corações gigantes. As
mulheres do Jequitinhonha.
VIÚVAS DE MARIDO-VIVO
Os trabalhos com barro que criam as cerâmicas tão características do Vale,
têm origem no trabalho das mulheres chamadas popularmente de Viúvas de
Marido-vivo ou Viúvas da Seca. Devido à seca e dificuldades de encontrar
trabalho, os homens da região foram sempre obrigados a deixar as famílias para
trabalhar em outras cidades, principalmente São Paulo. Com isso, restava às
esposas ficar em casa com os filhos e ir atrás de fontes de renda. A solução
estava no único recurso abundante dali. A fonte veio da terra seca. As mulheres
encontraram no barro a matéria-prima de vasilhas, panelas e potes e futuramente
bonecas, animais e objetos de decoração. Foi assim que “da terra seca onde não
nasce nem um pau de flor, começaram a brotar bonecas de barro”, como diz sabiamente
o dito popular. Um conhecimento que atravessou gerações, transmitido de mãe
para filha e as vezes até filho.
No início os produtos fabricados eram utilitários, e muitas vezes nem eram
vendidos, mas trocados em feiras por alimentos. O caminho era árduo. Mães e
filhas peregrinavam de madrugada com as peças, a pé ou de burro, para pegar o
caminhão que as levaria à cidade de Capelinha. A artesã Anísia se lembra bem.
“A gente levava na carroceria do caminhão. Arrumava nos balaios, levava as
vezes na cabeça lá de Campo Alegre até no asfalto, pra pegar o caminhão. O
caminhão passava lá de madrugada.” Anísia Lima de Souza mora Comunidade Campo
do Buriti, a 10 quilômetros de
Turmalina. Tem três filhos e seu marido trabalha numa mineradora em Conceição
do Mato Dentro.
Essa rotina era feita aos sábados. Mal retornavam o trabalho já começava.
Quando tudo acabava, já era outro dia de feira. “Segunda tirava o barro, socava
amassava, tinha que produzir tudo na semana. Sexta queimava. Tirava de
madrugada mesmo, embalava com capim, folha de banana. Aí punha nesse saco de
fibra, punha na cabeça e ia embora. Chegava em capelinha e trocava as coisas:
feijão café, verdura. Chegava em casa tinha que arrumar a casa. Domingo as
vezes a gente saía, passeava. Ia no forró. Mas segunda, seis horas da manhã,
tudo de novo.” Quem conta é Deuzani Gomes dos Santos, artesã também moradora da
Comunidade Campo do Buriti.
Deuzani e Anísia são muito mais do que duas artesãs: representam uma
história de superação e humildade. Hoje, não relutam ao dizer como os
tempos mudaram — para melhor. Mas elas têm na memória toda a sua trajetória de
vida, muitas vezes solitária, porém com a ajuda das outras viúvas, mantinham
vivas a certeza de que algo poderia ser feito.
MÃOS DE ARTESÃS QUE LEVANTAM PAREDES
Deuzani se lembra bem. Ela relata que em 1994 as artesãs se reuniram, na
maioria jovens de Campo Alegre que casaram e mudaram para comunidades próximas
à Turmalina. Eram oito, junto com Dona Rosa, já senhora e que morava na
comunidade. Todas tinham que trabalhar, mas sabiamente perceberam que sozinhas
não tinham a mesma força que unidas. O exemplo veio de Campo Alegre, onde
algumas eram já afiliadas às Associações que sobreviviam muito pela ação da
então CODEVALE (Comissão do Desenvolvimento Vale de Jequitinhonha). No final
dos anos 70, este órgão do governo — que depois foi transformada em uma
secretaria especial do Vale do Jequitinhonha — enviava pessoas com frequência
às associações para fazer alguma compra ou encomenda.
Elas começaram a se reunir onde fosse possível — na rua ou na porta da
igreja —para discutir formas de melhorar o artesanato e a renda. Em um dos
encontros, foram avistadas pelo padrinho de Deuzani que resolveu dar um lote
para as artesãs construírem a associação. Eram então oito mulheres, um sonho em
comum e um lote de 10m2. “Tínhamos o lote e a vontade de construir. Mais nada,
material nenhum, nem por onde começar. Daí, surgiu um mutirão das mulheres e
limpamos o lote.” No início a ajuda era escassa, mas aos poucos os homens
ajudaram, inclusive a prefeitura, com material e transporte. O trabalho pesado
ficou mesmo por conta das mãos femininas. “Levantamos paredes, alguns zombavam
da gente, outros passavam e nos animavam e davam dicas pra nós”. Tudo era
improvisado, menos a determinação.
“CAÇAR BARRO”
Hoje são mais de 40 artesãs. Deuzani saiu da associação, pois agora pode
trabalhar sozinha. “Valeu o esforço, aprendi muito. Foi muito sofrido. As
humilhações de ter que pedir as coisas e ouvir muitas negativas. Com cada coisa
aprendi um pouco. Até como deixar os meus filhos para poder cuidar do trabalho.
Pra mim a associação é um aprendizado. Aprendi a conviver.”
Dona Rosa é a mais velha. Ao ser perguntada sobre como tudo começou, diz
que o caso é muito grande. “Eu comecei comigo mesma, não foi ninguém que me
ensinou. Fui caçar barro, moldei umas dez panelas sem ninguém me ensinar e pus
pra secar e queimar. Daí, eu vendi algumas por um mil e quinhentos réis.” Hoje
com quase 90 anos, Dona Rosa não pensa em parar. “A cerâmica é um divertimento.
Eu vivo sozinha aqui, tem dia que a cabeça tá ruim, aí eu pego uma panela de
barro pra fazer.”
Junto com elas, várias outras mulheres são protagonistas. Irene, Zezinha,
Luisa, Tereza, Faustina, Zefinha, Aúrea, Rita. Cada uma atua como pode.
Faustina é líder comunitária, sempre preocupada com tudo e todos. Ela é
responsável pela divisão das contas de água e luz dos moradores e pela
coordenação da Associação de Moradores do Campo Buriti e Coqueiro Campo. Já
Zezinha — Maria José Gomes
da Silva — foi selecionada para a exposição de Mulheres Artesãs da ONU em
Nova Iorque. Parece até que ela não sabe o quão perfeito
já é seu trabalho. “Eu sempre acho que posso melhorar. Ah, eu queria uma boneca
bonita demais, um vestido bonito demais”, afirma.
TURISMO SOLIDÁRIO
Todos esses esforços foram aos poucos chamando a atenção. Em 2005, o
Governo de Minas criou o Turismo Solidário, um programa elaborado para realizar
a ordenação turística de localidades que possuem rico patrimônio natural e
cultural, porém baixos índices de desenvolvimento humano. A iniciativa
qualificou vários moradores de algumas cidades do Norte do estado e do Vale do
Jequitinhonha.
Enquanto isso, outras iniciativas surgiram de olho no desenvolvimento das
riquezas culturais do Vale — e uma delas merece atenção especial: o projeto
Raízes. Inaugurado em 2006 como Raízes Turismo e Desenvolvimento Local, tinha o
propósito de unir o desejo das turismólogas Mariana Madureira e Marianne Costa
de desmistificar que o turismo deve ser uma atividade meramente
econômica. Em 2009, criaram o Raízes Artesanato, de comercialização de
artesanato solidário do Vale do Jequitinhonha e Norte de Minas. Até que em 2012
ampliaram e criaram a Raízes Desenvolvimento Sustentável, um negócio social de
desenvolvimento local que utiliza o turismo, artesanato e associativismo para
promover experiências e enriquecimento cultural às pessoas, além de fomentar soluções
sustentáveis de desenvolvimento local.
“Mariana e Marianne são duas meninas muito inquietas, muito vivas, que
pensam sempre em como podemos transformar o mundo, mudar as coisas e como o
turismo pode fazer diferença na vida das pessoas.” O depoimento é de Jussara
Rocha, historiadora, hoje também sócia da empresa.
No início, a iniciativa consistia na tarefa de trazer, expor e vender o
trabalho das artesãs. Mas certamente o convívio com as mulheres e a vida do
Vale instigou as inquietas empresárias de que era possível e preciso fazer
mais. Os valores das obras comercializadas não estavam apenas na beleza do
objeto. O verdadeiro valor estava na história, na simpatia, na humildade de
quem o produziu. “A gente valoriza o artesanato, porém fazemos as pessoas entenderem
que o Vale do Jequitinhonha é a vida dessas pessoas. E mais: isso desmitifica o
Vale como uma terra da pobreza. É um vale da riqueza das pessoas. As pessoas
ali transformaram suas vidas com histórias incríveis”, argumenta Jussara.
DIÁLOGO E DESENVOLVIMENTO
A Raízes criou um diálogo com a comunidade para formatar um roteiro de
base comunitária com as artesãs. No início, ensinaram as mulheres sobre a
cadeia produtiva e sobre os preços — uma qualificação empreendedora. Hoje
realizam consultoria, trabalhos de voluntariados, viagens solidárias e viagens
de experiências. Essa última consiste numa viagem de seis dias para o Vale, nas
regiões de Minas Novas e Turmalina. Inclui hospedagem e alimentação na casa das
artesãs e uma oficina de cerâmica que engloba todo o processo de produção. A
viagem conta com a consultoria da curadora de arte Maria Sônia Madureira de
Pinho, pós-graduada em Gestão do Patrimônio e que já trabalhou com o mesmo
grupo de artesãs.
Longe de ser um roteiro turístico engessado, a viagem torna-se uma
experiência surpreendente. É uma imersão no mundo dessas guerreiras que recebem
com um sorriso no rosto e uma vontade de compartilhar, de ensinar. A Raízes faz
questão de que participem o maior número possível de mulheres: algumas dão oficinas,
outras fazem almoços fartos e deliciosos, outras abrem suas casas para uma boa
prosa.
“A gente faz a trilha, bate o barro, quebra o barro, soca, amassa, molda,
cria o produto, espera secar, pinta, queima. Tudo em seis dias. Em cada casa
elas contam uma história, e quando você vê todos parecem amigos de longa data.
É muito bonito. Só vivendo. É difícil formatar um roteiro e colocar na
prateleira,” explica Jussara.
Já as viagens solidárias são realizadas de acordo com demandas da região.
A mais recente ação realizada foi a criação de uma biblioteca comunitária para
as crianças. Foram doados mais de mil livros, que já estavam nas mãos de jovens
e crianças antes mesmo da comunidade terminar de construir o local da nova
biblioteca.
PERSONAGENS E PROTAGONISTAS
“O barro ensina as pessoas que tem boas ideias. Quando o barro é ruim não
dá liga. Quando a ideia é ruim não dá liga também. ” É o que diz a sábia Dona
Rosa. As ideias se aprimoraram. De potes e panelas, o artesanato ganhou vida em
personagens e em objetos de decoração. As bonecas são, sem dúvida, as mais
famosas das peças das artesãs. Casais, moças e mães amamentando seus filhos.
Segundo Joubert Cândido, coordenador da galeria do Sesc MG em
Belo Horizonte , a ideia das bonecas surgiu por causa do
formato das tampas de bilha — vaso de barro com gargalo curto e estreito. Mas
cada objeto é de um jeito. Cada artista tem características próprias. Há quem
diz que as bonecas levam traços da criadora.
“O jeito de fazer a cerâmica mudou muito. O acabamento, as peças.
Hoje, quase não se faz as peças que a gente fazia. O pessoal comprava pra usar
mesmo. Agora, o pessoal usa muito peça industrializada e compra pra decorar”,
coloca Deuzani. A artesã emociona quem escuta sua trajetória de vida. Ela conta
que no dia em que nasceu, sua madrinha e parteira a levou para o lado de fora,
já que na casa não havia luz. “Ela me pegou pra ver se eu era normal, pois
estava escuro. Ela me disse que a primeira coisa que eu fiz foi abrir os olhos
e olhar a lua. Eu sou apaixonada com a lua até hoje”. Deuzani teve uma vida
difícil devido às dificuldades da região, mas nunca deixou de enxergar poesia
onde pudesse.
Quando adolescente, sua principal companhia, muitas vezes, era o caderno
no qual escrevia e depois desmanchava tudo para poder escrever mais. Agora, é
uma artesã do barro e das palavras. Jussara relata que em uma das viagens ao
Vale, teve o prazer de ler seus pequenos poemas. “A Deuzani é poeta. Um dia,
ela se sentou comigo na casa dela. Eu perguntei o que ela mais gosta de fazer e
ela me disse que o que mais gosta de fazer na vida é escrever. Ela me mostrou o
que escreve — nunca havia mostrado para ninguém. Eu lia e chorava. Ela tem até
a quarta série. É uma pessoa iluminada. O sonho dela é publicar um
livro.”
Fácil é se emocionar tantas histórias. Jussara diz, enfática, que ali
estão “mulheres fortes e unidas para buscar soluções para melhorar a vida”.
O jeito é viver e ver de perto. Sentir o barro, pisar na terra seca e
moldar com as artesãs uma nova forma de pensar sobre o Vale e suas verdadeiras
riquezas.
Fonte:
http://revistasagarana.com.br/artesas-do-vale-do-jequitinhonha/
Outras Américas, Sebastião Salgado
Outras
Américas registra os povos indígenas da América Latina. Com 48 fotografias
em preto e branco, resulta de um trabalho que foi iniciado em 1977 e exigiu
sete anos para ser concluído. Nova edição, com textos originais da época e um prefácio
do editor Claude Nori relatando sua gênese.
Lília Waneck Salgado (Org.)
Tradução: Dorothée de Bruchard
Lília Waneck Salgado (Org.)
Tradução: Dorothée de Bruchard
APRESENTAÇÃO
Outras
Américas, que registra os povos indígenas da América Latina, é o resultado de
um trabalho que foi iniciado em 1977 e exigiu sete anos para ser concluído.
Para realizá-lo, Sebastião Salgado percorreu desde o litoral do Nordeste
brasileiro às montanhas do Chile e daí à Bolívia, ao Peru, ao Equador, à
Guatemala, ao México. Na Introdução, o jornalista Alan Riding descreve o que
aparece nas fotografias do livro: "Muito simplesmente, é o mundo dos
destituídos, daqueles que os desertos e serras desoladas da América Latina
observam enquanto seus países mudam, deixando-os de lado". É um mundo
"que se mantém unido pelo nascimento, pela família e pela morte, e ainda
pelo mito, pela fé e pelo fatalismo". Com sua estética que se põe a
serviço da militância ética, Sebastião Salgado cria uma narrativa visual que
muitas vezes obriga o leitor a constatar: é indiscutível a beleza das fotos,
mas é terrível o mundo que elas retratam.
Salgado saiu do litoral do Nordeste brasileiro e passou por cidades da Bolívia, Chile, Peru, Equador, Guatemala e México. "Outras Américas" é um relato visual que impressiona pelo lirismo contido nas imagens, o que se explica pelo fato de o fotógrafo na época estar afastado do país.
Como diz no prefácio da edição, "meu único desejo era voltar à minha terra bem-amada, para meu Brasil do qual um exílio um pouco forçado me obrigou a me afastar".
Por outro lado, é uma pesquisa rica que mostra as condições de vida dos camponeses e a resistência cultural dos indígenas latino-americanos e de seus descendentes.
As mensagens trazem a marca registrada do autor e confirmam que Salgado é um fotógrafo fascinado pelo ser humano.
As fotos dessa obra baseiam-se nesse ímpeto de fascinação, fazendo o artista primar pela captação do universo humano e geográfico.
Por essa razão, o livro é uma documentação iconográfica valiosa, em que a composição e a percepção visual enunciam a expressão do autor filtrada pelas luzes e contrastes em preto-e-branco.
No plano histórico, as 120 páginas fazem uma espécie de resumo da América Latina, evidenciando seu lado místico e religioso entremeado pela miséria e pela morte.
Apesar de estar sendo lançado só agora no país, o livro não perdeu sua atualidade. Ao contrário -em fotos recentes da mexicana Flor Garduño, a situação dos indígenas permanece a mesma.
No Brasil, infelizmente, nota-se que o número de crianças de rua cresceu em relação ao período fotografado por Salgado.
De acordo com Lélia Wanick Salgado, mulher do fotógrafo, o livro só está sendo lançado agora no país porque a obra de Salgado foi descoberto há pouco tempo pelos brasileiros. Lélia, que também é autora do projeto gráfico do livro e diretora da Amazonas Images, agência criada pelo casal há cinco anos, disse que está prevista para o ano que vem uma grande mostra sobre o movimento das populações no mundo.
Fonte:
https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13994
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq21069909.htm
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq21069909.htm
Terra, Sebastião Salgado
Salgado
volta sua lente militante às feridas abertas da terra brasileira, numa
homenagem comovente à gente que nela vive, e por ela morre. Acompanha um CD com
quatro canções de Chico Buarque.
APRESENTAÇÃO
Se existe
alguém que merece o título de Cidadão do Mundo, essa pessoa é o fotógrafo
Sebastião Salgado. Cidadão porque seu talento tem a marca da generosidade, da
luta incansável por uma melhor compreensão do homem; do Mundo porque sua lente
solidária ignora preconceitos e fronteiras.
"Fotografia militante":
essa definição do próprio Salgado sobre seu trabalho - simples, precisa - está
em Terra, assim como estava em Trabalhadores, também lançado pela
Companhia das Letras. Em ambos, um profundo senso ético alimenta uma estética
requintada. Mas enquanto naquele retratava-se o trabalho braçal em mais de
vinte países, as cem fotos deste, todas em preto e branco, foram feitas no
Brasil, entre 1980 e 1996. São imagens de pessoas de algum modo desterradas:
trabalhadores rurais, mendigos urbanos, presos, garimpeiros, crianças de rua -
gente vagando entre o sonho e o desespero, como escreve José Saramago no
prefácio. Nessas fotos, a luminosidade bicromática reflete paisagens humanas
onde pode faltar tudo, a começar pelo espaço mínimo para assentar a vida. Um CD
com quatro canções de Chico Buarque (uma delas em parceria com Milton
Nascimento) acompanha o livro, que teve lançamento simultâneo em quatro países:
Brasil, França, Inglaterra e Portugal.
Prêmio Jabuti 1998 de Melhor Reportagem
Prêmio Jabuti 1998 de Melhor Reportagem
Fonte:
https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=10721
quarta-feira, 11 de abril de 2018
(2008) Regional, universal: 100 anos de Guimarães Rosa
Ao se
revisitar a obra de Guimarães Rosa, no ano em que o escritor completaria cem
anos, percebe-se a força e atualidade de seus livros. O que faz uma obra de
arte ser considerada bela, eterna e sobreviver ao tempo é uma questão com
muitas respostas. As hipóteses passam pelas grandes revoluções técnicas como
o sfumato de Leonardo da Vinci, a grandeza e a beleza estética de
Dante Alighieri ou a espiritualidade de Johann Sebastian Bach.
Suzi
Sperber, professora de literatura da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp), acredita que a atemporalidade da obra de Guimarães Rosa se deve
"à extraordinária beleza do texto e forma como ele trabalha com as
palavras". Segundo ela, a obra dele nos obriga a abordá-la com a emoção e
não com a razão. "Ele quer a derrota da razão. O leitor não é obrigado a
ter conhecimentos literários para ser envolvido pelo texto", afirma.
Os contos e
romances do autor, na primeira impressão, parecem inacessíveis, mas ao mesmo
tempo envolvem o leitor, principalmente através da linguagem poética e uma
construção estética consciente do som e ritmo da palavra. Sua linguagem é um
"terreno movediço e de limites imprecisos entre a prosa e a poesia",
define Cláudia Soares, outra especialista em Guimarães Rosa e professora da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Segundo ela, Rosa produziu uma mistura,
partindo de uma dicção de fundo regionalista, acrescentando elementos
provenientes de seu amplo conhecimento da língua portuguesa e das outras que
conhecia – como arcaísmos, estrangeirismos e neologismos.
Grande
sertão: veredas, a obra mais aclamada do autor, é uma auto-narrativa de um
jagunço aposentado, que conta a sua história a um viajante, um
"doutor", que passa um tempo hospedado em sua fazenda. O registro
dessa conversa, no qual só ouvimos a voz do jagunço, reflete e interroga o
doutor sobre os acontecimentos vividos, o sentido da existência, paixões e as
lutas entre Deus e o Diabo. Cláudia define o livro como sendo "a estória
de um homem em sua 'travessia', pela existência, tratando sobre questões que
todos temos que enfrentar em nossas próprias travessias".
Um ponto em
comum em vários textos de Rosa é o encontro de conceitos e pessoas, numa
primeira análise, antagônicas como, por exemplo, o jagunço e o doutor.
"Rosa promoveu definitivamente o encontro entre o mundo do doutor e o do
sertanejo, entre a cidade e sertão, entre cultura rústica, de base oral, e
cultura letrada. Assim, ele emprestou ao sertão significados simbólicos e
alargou os seus limites para além das fronteiras geográficas. O sertão se
tornou o mundo", reflete Cláudia.
Estudando
Rosa é possível perceber que ele era sensível tanto à cultura popular do
sertão, como à chamada erudita. Suzi Speber conta que passou um longo período
na casa do autor logo após a sua morte. Na biblioteca, a pesquisadora teve
acesso aos seus livros e observou suas anotações, grifos e até mesmo trechos
que ele escrevia a partir do que lia. "Rosa era muito eclético, lia
filosofia japonesa, européia e do oriente chinês. Ele também se interessava por
livros de cunho espiritualista e até literatura espiritualista de terceira categoria",
conta a pesquisadora.
CULTURA
POPULAR
Publicado em
1956, Grande sertão: veredas foi escrito quatro anos depois de uma
famosa viagem do autor pelo interior de Minas Gerais, acompanhando a condução
de uma boiada. Rosa anotou exaustivamente dados concretos da realidade física e
da cultura sertaneja, e esses registros – suas famosas cadernetas de viagem,
que atualmente se encontram no Instituto de Estudos Brasileiros da USP – foram
utilizados como matéria-prima que o escritor trabalhou esteticamente para
compor os livros. As anotações incluíam dados sobre a flora, a fauna e a gente
sertaneja, usos, costumes, crenças, linguagem, superstições, versos, anedotas,
canções, casos, estórias, enfim, tudo que lhe despertasse algum interesse.
BUSCA POR
SIGNIFICADOS
A união
desses dois universos, do homem que falava sete idiomas e possuía uma vasta
cultura, com o apreciador da cultura popular, é, talvez, o traço mais
característico de Rosa. Suzi afirma que pôde perceber, nas anotações a que teve
acesso, que o autor gostava de conversar com as pessoas mais humildes. "As
pessoas que não tiveram instrução, procuram palavras para exprimir aquilo que
experienciam, criam novas palavras, imagens, ou transformam outras que
conhecem, mas não sabem o que significa. Essas pessoas humildes abriram o
caminho para que Rosa partisse nessa busca por novas palavras e imagens",
conclui.
Já para Suzi
Sperber, "há muitas camadas de sentido, complexas, diferentes e de origens
muito diferentes, que são perceptíveis exatamente a partir desse trabalho de
linguagem que ele fez". Para a pesquisadora a obra de Guimarães Rosa seria
como um palimpsesto, em que se raspa a tela de uma pintura e surge outra
camada, que se raspada permite enxergar nova camada. "O texto de Rosa tem
sempre mais camadas, você não encontrará uma análise que irá resultar em uma
conclusão final, pois sempre haverá outra. Tem mil facetas. O fascínio é
extraordinário", conclui.
Fonte:
http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252008000200028
Fonte das Imagens:
http://sinprominas.org.br/noticias/extra-classe-no-sertao-guimaraes-rosa/
https://www.literar.com.br/lexico-guimaraes-rosa/
https://www.instagram.com/p/BNp5Xf1BZEw/
Assinar:
Postagens (Atom)
















