Durante séculos, a mandioca foi o principal alimento consumido no Brasil. Muito antes da chegada dos colonizadores, a raiz já era cultivada pelos povos indígenas em seu sistema de manejo da floresta, em que diversas espécies de culturas podem conviver, e que respeita a biodiversidade. A capacidade de adaptação da mandioca a diferentes solos e a possibilidade de mantê-la intacta por até dois anos à espera de ser colhida encantaram os portugueses, que aprenderam com os povos originários a cultivar o alimento e também as diferentes formas de consumi-lo.
A farinha feita da mandioca era
chamada por diferentes grupos indígenas de farinha de guerra, porque era o
mantimento que costumavam levar às costas quando iam enfrentar outros povos, e
pelos portugueses, de farinha de pau, devido à mandioca ser plantada como uma
estaca, ser “a raiz de um pau”. Na forma de farinha, a mandioca conserva por
muito tempo suas qualidades nutricionais e por isso foi muito usada, por
exemplo, nas excursões dos bandeirantes que exploraram o sertão da colônia.
Os portugueses logo descobriram
também que a farinha da mandioca servia perfeitamente como alimento nos navios,
onde a comida se deteriorava rapidamente, e passaram a usá-la na dieta dos
marinheiros e de pessoas escravizadas que traziam da África. Graças à farinha
dos indígenas, a mortalidade nos navios diminuiu e os traficantes aumentaram
seus lucros. Assim, a mandioca passou a ter uma importância fundamental na
economia colonial e foi através do tráfico negreiro que a planta foi
introduzida na África, onde se tornou também um dos principais alimentos da
população.
Para o historiador Luiz Felipe de
Alencastro, é possível afirmar que houve um “ciclo da mandioca” na economia
colonial brasileira, entre os anos de 1590 e1630. Padres jesuítas da Bahia, por
exemplo, exportavam mandioca para os missionários de Angola em troca de pessoas
escravizadas, “afora o sustento dos militares e dos padres, o transporte e a
guarda – durante meses – de centenas de cativos em trânsito induziam à
armazenagem de gêneros alimentícios junto às feiras e portos de trato
africanos” (In: O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul.
Companhia das Letras, São Paulo, 2000). Para o historiador Francisco Alfredo
Morais Guimarães, em seu artigo A cultura da mandioca no Brasil e no mundo: um
caso de roubo da história dos povos indígenas, “esse reconhecimento do papel
econômico exercido pela cultura da mandioca no Brasil e no contexto do império
português se contrapõe ao desprestígio dado a ela na historiografia brasileira,
onde o foco, até bem pouco tempo, esteve direcionado para outras atividades
produtivas, sem se levar em conta a questão da subsistência dos diversos
sujeitos sociais integrados à economia-mundo no Brasil e nas demais áreas do
império português”.
O consumo da mandioca e de sua
farinha se disseminou pelo Brasil e permanece até hoje. Na gravura acima, do
francês Victor Frond (1821-1881) vemos mulheres escravizadas descascando o
alimento que penetrou em todas as casas, fazendas, engenhos, senzalas e se
tornou apreciado por todos. “O alimento principal da dieta dos colonos foi
durante muitos séculos a farinha de mandioca, preparada de inúmeras formas
_bolos, beijus, sopas, angus_, misturada muitas vezes simplesmente à água, ou
ao feijão e às carnes, quando havia. Trocada em certas regiões pela farinha de
milho, como na São Paulo seiscentista e em Minas Gerais, servia de substituto
do pão de trigo, mais raro e mais caro. Em algumas regiões, por exemplo, no
Nordeste, foi a ‘rainha da mesa’, como a chamou Câmara Cascudo, tão fundamental
era para a alimentação popular. Quando servida úmida, era posta em terrinas e
cabaças; quando seca, vinha à mesa em cestas. A difusão do seu uso chegou à
Metrópole e foi amplamente usada, sobretudo em épocas de escassez de trigo,
quando as frotas levavam para Portugal grandes carregamentos da ‘farinha’,
forma generalizada de denominá-la, pois já se sabia que era farinha de
mandioca”, escreveu a historiadora Leila Mezan Algranti, no capítulo Famílias e
Vida Doméstica, do primeiro volume da História da Vida Privada no Brasil
(Companhia das Letras, São Paulo, 1997).
Já no século XIX, o francês
Jean-Baptiste Debret, que registrou em suas gravuras os hábitos e costumes da
colônia entre 1817 e 1821, também deu destaque para a mandioca, junto com o
inhame e o cipó, entre as plantas nutritivas do Brasil. “Aipim (mandioca
mansa). (...) É um comestível comum a toda a população brasileira.
Acrescenta-se aos legumes que entram na composição do cozido e é servida na
mesa para ser comida como pão. No mercado do Rio de Janeiro essa raiz é vendida
diariamente”. (In: Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo, 2016).
Fonte Imagem:
https://www.brasilianaiconografica.art.br/artigos/23423/o-ciclo-da-mandioca-uma-divida-com-os-indigenas
https://gastronomiacarioca.zonasul.com.br/aipim-mandioca-macaxeira/

