A origem da devoção ao Senhor do
Bonfim remonta ao século XVIII e começa com um homem que, embora hoje associado
à fé, estava profundamente ligado à engrenagem do tráfico de pessoas
escravizadas. Teodósio Rodrigues de Faria, oficial da Marinha portuguesa e
traficante de escravos, teria escapado de um naufrágio em alto-mar e feito uma
promessa: se sobrevivesse, levaria para Salvador uma imagem do Senhor do
Bonfim, devoção já popular em Setúbal, Portugal.
Teodósio cumpriu a promessa em
1745. A imagem chegou à Bahia e, pouco depois, iniciou-se a construção do
templo no alto da Colina Sagrada, na península de Itapagipe. A igreja foi
erguida com trabalho majoritariamente escravizado — mãos negras que cortaram
pedra, levantaram paredes, carregaram madeira e moldaram um dos principais
símbolos do catolicismo baiano. O mesmo chão que hoje recebe flores e água
perfumada foi, um dia, pisado por corpos acorrentados.
Ironia da história: o homem cuja
fé deu origem ao templo — e cujo túmulo até hoje está dentro da igreja —
construiu sua fortuna traficando seres humanos. A devoção que se tornaria
símbolo de mistura religiosa nasceu, portanto, dentro da lógica colonial que
explorava, catequizava e silenciava.
Com o passar do tempo, os
escravizados não apenas construíram o espaço físico da igreja, como também
passaram a se apropriar dele espiritualmente. Para além da liturgia católica
oficial, eles levaram para dentro do templo seus próprios ritos, saberes e tradições.
No Senhor do Bonfim, muitos reconheceram Oxalá, o orixá da criação, da paz, da
ancestralidade e do branco — aquele que veste o mundo de calma e equilíbrio.
O ritual das águas, central nas
cerimônias dedicadas a Oxalá, passou a ser praticado dentro da igreja. A
lavagem simbólica do chão não era apenas limpeza: era oferenda, era reza, era
memória africana sobrevivendo em território hostil. Durante anos, essa prática
coexistiu de forma tolerada — ou ignorada — pelas autoridades eclesiásticas.
Até que deixou de ser.
Quando a Igreja Católica percebeu
que o espaço sagrado estava sendo usado para rituais que escapavam ao controle
doutrinário europeu, veio a interdição. Os mesmos corpos que haviam erguido o
templo foram proibidos de exercer ali sua fé. A água de Oxalá, antes derramada
no interior da igreja, foi vetada. O chão que aceitara o suor do trabalho
escravizado não podia mais receber sua espiritualidade. A exclusão não foi
apenas religiosa: foi racial, cultural e simbólica. Aos negros, restava
assistir de fora. Literalmente.
Foi então que ocorreu o grande
ponto de virada da história — o verdadeiro plot twist que
transformaria violência em festa, exclusão em celebração pública. Se não podiam
lavar o interior do templo, lavariam o que estava do lado de fora. As
escadarias.
Nascia ali, não por concessão, mas
por resistência, a Lavagem do Bonfim como é conhecida hoje. O gesto era simples
e profundamente político: levar para a frente da igreja aquilo que lhes fora
negado dentro. A água, o branco, os cânticos, o axé — tudo permanecia, agora
exposto à rua, ao povo, à cidade inteira. A festa ganhou cores de Oxalá, sons
de atabaque, cheiros de ervas sagradas. Tornou-se pública, coletiva e
impossível de silenciar. Aquilo que a Igreja tentou conter, a fé popular
expandiu.
Ao longo dos séculos XIX e XX, a
Lavagem do Bonfim cresceu, foi incorporada ao calendário oficial da cidade e,
não sem conflitos, passou a ser tolerada — depois celebrada — pelo poder
público e pela própria Igreja. Ainda assim, as tensões nunca desapareceram
completamente. Em diversos períodos, padres tentaram proibir a entrada das
baianas no templo, fechar portas, conter excessos. Em resposta, a festa sempre
se reinventou, mantendo seu caráter híbrido e popular.
Hoje, a Lavagem do Bonfim é
considerada uma das maiores manifestações religiosas do Brasil. Reúne milhares
de pessoas, mistura fé, cultura, turismo e política. É palco de promessas,
protestos silenciosos, pedidos de justiça, agradecimentos e memórias ancestrais.
Políticos disputam espaço, artistas acompanham o cortejo, e o mundo fotografa o
espetáculo.
Mas compreender a Lavagem apenas
como festa é apagar sua origem mais profunda. Ela não nasceu do consenso, mas
do conflito. Não foi criada pela instituição, mas pela exclusão. É filha direta
da segregação racial e da tentativa de apagar práticas africanas — e,
justamente por isso, tornou-se um dos mais poderosos símbolos de permanência da
cultura negra no Brasil.
Quando as baianas jogam água nas
escadarias, não estão apenas limpando pedra. Estão lavando a história. Estão
lembrando que aquele espaço foi erguido por mãos escravizadas, que a fé negra
foi expulsa para fora e que, ainda assim, resistiu. Cada balde derramado é um
gesto de memória contra o esquecimento.
No alto da colina, dentro da
igreja, repousa o túmulo de Teodósio Rodrigues de Faria — o traficante que
prometeu, construiu e morreu. Do lado de fora, a vida pulsa em branco, dança,
canta e transforma dor em axé. É ali, nas escadarias, que a história brasileira
se revela com mais verdade: marcada pela violência, mas também pela capacidade
extraordinária de reinventar a fé como forma de sobrevivência.
A Lavagem do Bonfim não é apenas
uma festa. É um testemunho. Um rito nascido da proibição. Um altar erguido fora
dos muros. E talvez por isso mesmo seja tão poderosa: porque lembra, todos os
anos, que quando a fé é expulsa, ela não desaparece — ela ocupa a rua e vira
povo.
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