quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Da violência ao axé: a verdadeira história da Lavagem do Bonfim


A imagem que hoje corre o mundo é de paz, cor e sincretismo: mulheres vestidas de branco, baldes de água de cheiro, flores, cânticos e o perfume da alfazema escorrendo pelas escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim, em Salvador. A Lavagem do Bonfim é celebrada como símbolo da religiosidade baiana, da convivência entre catolicismo e candomblé, da alegria como expressão da fé. Mas por trás dessa cena consagrada existe uma história menos conhecida — marcada por violência, segregação racial, escravidão e resistência cultural.

A origem da devoção ao Senhor do Bonfim remonta ao século XVIII e começa com um homem que, embora hoje associado à fé, estava profundamente ligado à engrenagem do tráfico de pessoas escravizadas. Teodósio Rodrigues de Faria, oficial da Marinha portuguesa e traficante de escravos, teria escapado de um naufrágio em alto-mar e feito uma promessa: se sobrevivesse, levaria para Salvador uma imagem do Senhor do Bonfim, devoção já popular em Setúbal, Portugal.

Teodósio cumpriu a promessa em 1745. A imagem chegou à Bahia e, pouco depois, iniciou-se a construção do templo no alto da Colina Sagrada, na península de Itapagipe. A igreja foi erguida com trabalho majoritariamente escravizado — mãos negras que cortaram pedra, levantaram paredes, carregaram madeira e moldaram um dos principais símbolos do catolicismo baiano. O mesmo chão que hoje recebe flores e água perfumada foi, um dia, pisado por corpos acorrentados.

Ironia da história: o homem cuja fé deu origem ao templo — e cujo túmulo até hoje está dentro da igreja — construiu sua fortuna traficando seres humanos. A devoção que se tornaria símbolo de mistura religiosa nasceu, portanto, dentro da lógica colonial que explorava, catequizava e silenciava.

Com o passar do tempo, os escravizados não apenas construíram o espaço físico da igreja, como também passaram a se apropriar dele espiritualmente. Para além da liturgia católica oficial, eles levaram para dentro do templo seus próprios ritos, saberes e tradições. No Senhor do Bonfim, muitos reconheceram Oxalá, o orixá da criação, da paz, da ancestralidade e do branco — aquele que veste o mundo de calma e equilíbrio.

O ritual das águas, central nas cerimônias dedicadas a Oxalá, passou a ser praticado dentro da igreja. A lavagem simbólica do chão não era apenas limpeza: era oferenda, era reza, era memória africana sobrevivendo em território hostil. Durante anos, essa prática coexistiu de forma tolerada — ou ignorada — pelas autoridades eclesiásticas. Até que deixou de ser.

Quando a Igreja Católica percebeu que o espaço sagrado estava sendo usado para rituais que escapavam ao controle doutrinário europeu, veio a interdição. Os mesmos corpos que haviam erguido o templo foram proibidos de exercer ali sua fé. A água de Oxalá, antes derramada no interior da igreja, foi vetada. O chão que aceitara o suor do trabalho escravizado não podia mais receber sua espiritualidade. A exclusão não foi apenas religiosa: foi racial, cultural e simbólica. Aos negros, restava assistir de fora. Literalmente.

Foi então que ocorreu o grande ponto de virada da história — o verdadeiro plot twist que transformaria violência em festa, exclusão em celebração pública. Se não podiam lavar o interior do templo, lavariam o que estava do lado de fora. As escadarias.

Nascia ali, não por concessão, mas por resistência, a Lavagem do Bonfim como é conhecida hoje. O gesto era simples e profundamente político: levar para a frente da igreja aquilo que lhes fora negado dentro. A água, o branco, os cânticos, o axé — tudo permanecia, agora exposto à rua, ao povo, à cidade inteira. A festa ganhou cores de Oxalá, sons de atabaque, cheiros de ervas sagradas. Tornou-se pública, coletiva e impossível de silenciar. Aquilo que a Igreja tentou conter, a fé popular expandiu.

Ao longo dos séculos XIX e XX, a Lavagem do Bonfim cresceu, foi incorporada ao calendário oficial da cidade e, não sem conflitos, passou a ser tolerada — depois celebrada — pelo poder público e pela própria Igreja. Ainda assim, as tensões nunca desapareceram completamente. Em diversos períodos, padres tentaram proibir a entrada das baianas no templo, fechar portas, conter excessos. Em resposta, a festa sempre se reinventou, mantendo seu caráter híbrido e popular.

Hoje, a Lavagem do Bonfim é considerada uma das maiores manifestações religiosas do Brasil. Reúne milhares de pessoas, mistura fé, cultura, turismo e política. É palco de promessas, protestos silenciosos, pedidos de justiça, agradecimentos e memórias ancestrais. Políticos disputam espaço, artistas acompanham o cortejo, e o mundo fotografa o espetáculo.

Mas compreender a Lavagem apenas como festa é apagar sua origem mais profunda. Ela não nasceu do consenso, mas do conflito. Não foi criada pela instituição, mas pela exclusão. É filha direta da segregação racial e da tentativa de apagar práticas africanas — e, justamente por isso, tornou-se um dos mais poderosos símbolos de permanência da cultura negra no Brasil.

Quando as baianas jogam água nas escadarias, não estão apenas limpando pedra. Estão lavando a história. Estão lembrando que aquele espaço foi erguido por mãos escravizadas, que a fé negra foi expulsa para fora e que, ainda assim, resistiu. Cada balde derramado é um gesto de memória contra o esquecimento.

No alto da colina, dentro da igreja, repousa o túmulo de Teodósio Rodrigues de Faria — o traficante que prometeu, construiu e morreu. Do lado de fora, a vida pulsa em branco, dança, canta e transforma dor em axé. É ali, nas escadarias, que a história brasileira se revela com mais verdade: marcada pela violência, mas também pela capacidade extraordinária de reinventar a fé como forma de sobrevivência.

A Lavagem do Bonfim não é apenas uma festa. É um testemunho. Um rito nascido da proibição. Um altar erguido fora dos muros. E talvez por isso mesmo seja tão poderosa: porque lembra, todos os anos, que quando a fé é expulsa, ela não desaparece — ela ocupa a rua e vira povo.


Texto extraído de: https://revistaforum.com.br/brasil/da-violencia-ao-axe-a-verdadeira-historia-da-lavagem-do-bonfim/
Fonte Imagem: 
https://g1.globo.com/ba/bahia/verao/noticia/2023/01/12/fotos-confira-imagens-da-lavagem-do-bonfim-em-salvador.ghtml
https://revistaforum.com.br/brasil/da-violencia-ao-axe-a-verdadeira-historia-da-lavagem-do-bonfim/

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O ciclo da mandioca, uma dívida com os indígenas


Durante séculos, a mandioca foi o principal alimento consumido no Brasil. Muito antes da chegada dos colonizadores, a raiz já era cultivada pelos povos indígenas em seu sistema de manejo da floresta, em que diversas espécies de culturas podem conviver, e que respeita a biodiversidade. A capacidade de adaptação da mandioca a diferentes solos e a possibilidade de mantê-la intacta por até dois anos à espera de ser colhida encantaram os portugueses, que aprenderam com os povos originários a cultivar o alimento e também as diferentes formas de consumi-lo.

Texto preto sobre fundo branco

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A farinha feita da mandioca era chamada por diferentes grupos indígenas de farinha de guerra, porque era o mantimento que costumavam levar às costas quando iam enfrentar outros povos, e pelos portugueses, de farinha de pau, devido à mandioca ser plantada como uma estaca, ser “a raiz de um pau”. Na forma de farinha, a mandioca conserva por muito tempo suas qualidades nutricionais e por isso foi muito usada, por exemplo, nas excursões dos bandeirantes que exploraram o sertão da colônia.

Os portugueses logo descobriram também que a farinha da mandioca servia perfeitamente como alimento nos navios, onde a comida se deteriorava rapidamente, e passaram a usá-la na dieta dos marinheiros e de pessoas escravizadas que traziam da África. Graças à farinha dos indígenas, a mortalidade nos navios diminuiu e os traficantes aumentaram seus lucros. Assim, a mandioca passou a ter uma importância fundamental na economia colonial e foi através do tráfico negreiro que a planta foi introduzida na África, onde se tornou também um dos principais alimentos da população.

Para o historiador Luiz Felipe de Alencastro, é possível afirmar que houve um “ciclo da mandioca” na economia colonial brasileira, entre os anos de 1590 e1630. Padres jesuítas da Bahia, por exemplo, exportavam mandioca para os missionários de Angola em troca de pessoas escravizadas, “afora o sustento dos militares e dos padres, o transporte e a guarda – durante meses – de centenas de cativos em trânsito induziam à armazenagem de gêneros alimentícios junto às feiras e portos de trato africanos” (In: O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. Companhia das Letras, São Paulo, 2000). Para o historiador Francisco Alfredo Morais Guimarães, em seu artigo A cultura da mandioca no Brasil e no mundo: um caso de roubo da história dos povos indígenas, “esse reconhecimento do papel econômico exercido pela cultura da mandioca no Brasil e no contexto do império português se contrapõe ao desprestígio dado a ela na historiografia brasileira, onde o foco, até bem pouco tempo, esteve direcionado para outras atividades produtivas, sem se levar em conta a questão da subsistência dos diversos sujeitos sociais integrados à economia-mundo no Brasil e nas demais áreas do império português”.

Foto em preto e branco de pessoas sentadas no chão

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O consumo da mandioca e de sua farinha se disseminou pelo Brasil e permanece até hoje. Na gravura acima, do francês Victor Frond (1821-1881) vemos mulheres escravizadas descascando o alimento que penetrou em todas as casas, fazendas, engenhos, senzalas e se tornou apreciado por todos. “O alimento principal da dieta dos colonos foi durante muitos séculos a farinha de mandioca, preparada de inúmeras formas _bolos, beijus, sopas, angus_, misturada muitas vezes simplesmente à água, ou ao feijão e às carnes, quando havia. Trocada em certas regiões pela farinha de milho, como na São Paulo seiscentista e em Minas Gerais, servia de substituto do pão de trigo, mais raro e mais caro. Em algumas regiões, por exemplo, no Nordeste, foi a ‘rainha da mesa’, como a chamou Câmara Cascudo, tão fundamental era para a alimentação popular. Quando servida úmida, era posta em terrinas e cabaças; quando seca, vinha à mesa em cestas. A difusão do seu uso chegou à Metrópole e foi amplamente usada, sobretudo em épocas de escassez de trigo, quando as frotas levavam para Portugal grandes carregamentos da ‘farinha’, forma generalizada de denominá-la, pois já se sabia que era farinha de mandioca”, escreveu a historiadora Leila Mezan Algranti, no capítulo Famílias e Vida Doméstica, do primeiro volume da História da Vida Privada no Brasil (Companhia das Letras, São Paulo, 1997).

Tecido com desenho de personagem de desenho animado

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Já no século XIX, o francês Jean-Baptiste Debret, que registrou em suas gravuras os hábitos e costumes da colônia entre 1817 e 1821, também deu destaque para a mandioca, junto com o inhame e o cipó, entre as plantas nutritivas do Brasil. “Aipim (mandioca mansa). (...) É um comestível comum a toda a população brasileira. Acrescenta-se aos legumes que entram na composição do cozido e é servida na mesa para ser comida como pão. No mercado do Rio de Janeiro essa raiz é vendida diariamente”. (In: Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2016).


Texto extraído de: https://www.brasilianaiconografica.art.br/artigos/23423/o-ciclo-da-mandioca-uma-divida-com-os-indigenas
Fonte Imagem:
https://www.brasilianaiconografica.art.br/artigos/23423/o-ciclo-da-mandioca-uma-divida-com-os-indigenas
https://gastronomiacarioca.zonasul.com.br/aipim-mandioca-macaxeira/

A cultura do milho no Brasil: a pamonha


Mais do que uma sobremesa típica das festas juninas e julinas, a pamonha carrega uma longa trajetória que começou antes mesmo da chegada dos europeus ao continente americano. Segundo o historiador Felipe Mello, graduado em História pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a receita tem origem indígena e reflete os costumes alimentares de diversos povos nativos das Américas.

Segundo o historiador, há evidências de que o milho já era utilizado na alimentação há milênios pelos povos originários das Américas, como os indígenas, os astecas e os maias. Entre os exemplos citados pelo especialista estão a produção de farinha e de bebidas à base do grão.

Mello destaca que há técnicas na produção de pamonha que provavelmente foram herdadas dos povos indígenas. “A técnica de cozimento em palha, por exemplo, é uma técnica indígena e proporciona um cozimento mais uniforme através da brasa, já que mantém a umidade do alimento”. O especialista acredita que o próprio transporte em ‘trouxinhas de palha’ pode ser um método herdado dos povos indígenas para facilitar o deslocamento da pamonha.

Importante destacar que com o início da colonização, a receita começou a sofrer alterações. “A receita original começou a ser alterada com a chegada dos europeus e essa troca ocorreu principalmente com a introdução do leite e do açúcar”, conta Mello. Segundo ele, a influência africana não é tão perceptível na pamonha, mas a europeia modificou a forma de preparo.

Embora não haja um registro exato de quando a pamonha passou a ser consumida fora das comunidades indígenas, o historiador aponta que “a partir do momento em que a gente tem a presença europeia e esse contato passa a ser feito, ela [pamonha] passa a ser consumida. Então, acredito que a partir do século XVI isso passa a acontecer, mas não há uma data precisa”.

Segundo o historiador, a pamonha é apenas um exemplo entre tantos alimentos que fazem parte da herança indígena na culinária brasileira. “A mandioca também é típica e feita de várias formas pelos indígenas. O consumo do peixe assado, enfim, há vários alimentos e iguarias que são de origem indígena e que a gente consome até hoje”, afirma.

Para Felipe Mello, essa relação entre alimentação e cultura é essencial para entendermos nossa história. “A produção de pamonha e a utilização do milho na dieta tem um significado cultural muito forte. A alimentação faz parte também da cultura, da formação desses povos e, consequentemente, da nossa história enquanto país”, concluiu.


Texto extraído de: https://redeglobo.globo.com/sp/eptv/epagro/noticia/voce-sabe-qual-e-a-origem-da-pamonha.ghtml
Fonte Imagem: https://www.tendaatacado.com.br/dicas/confira-8-receitas-de-pamonha-para-fazer-em-casa/?srsltid=AfmBOoqv9lbTgUmMov_peTFzqPUt5UbP2swBS5vq7V6CSL4BkPDcMzlb