sexta-feira, 17 de junho de 2022

PALAVRA ENCANTADA: Rapadura



Quando como um pedaço de rapadura
me vejo rindo
É felicidade...
Ah... pequeno pedaço da idade do Brasil
Gosto antigo da energia dos engenhos
Cor mestiça da terra e de minha gente
Rapadurinha, pois somos de casa...
Quando como uma rapadura...
É meu amigo, estou comendo a história do Brasil, saiba disso...
Gosto de sol da tarde
Gosto daqui
Tá na tigela na mesa,
na mão, na cumbuca
e na boca do povo

  
RAPADURA
por Frederico do Valle

  

PALAVRA ENCANTADA: Memória afetiva da goiabada cascão



De Chico menino,
no pomar que cabe no colo de minha terra,
subia nas árvores em sonho...
De goiabas se fartava Bento
Voava feito passarinho no reino encantado
No sol de início de ano,
nas chuvas de março que inundavam de goiabas o chão...
Bento é a memória com gosto, cheiro que a gente sente
Bento é o pensamento que voa com os pés na terra,
que toca a pessoa, os bichos
Bento, pequena roça do tamanho daquele pomar...
Bendito seja Chico que teima em ser pequeno até hoje
Coisa mais maior de grande


Memória afetiva da goiabada cascão
Frederico do Valle

  

PALAVRA ENCANTADA: Canecas

 

São nas cidadezinhas de Minas que o café é criado e guardado das sedes do mundo...

Canecas
Frederico do Valle


PALAVRA ENCANTADA: A broa e o tabuleiro

 


 Fui criado ao lado de uma chaleira sobre o velho fogão à lenha
Entre canecas, cafés e casos, a broa sumia do tabuleiro
Não me assusto com o antigo de minha vida analógica. 
Êta vida besta... A melhor de minha vida...

A broa e o tabuleiro
Frederico do Valle

PALAVRA ENCANTADA: De café, leite, broa e pão

  

Naquela velha cozinha fui menino
Fui menino em Minas
No estalar da lenha, na fumaça...
Destreza da velha Dinha em acender o dia
No pé do forno o gato dormia
Não vigiava o tempo que escorria nas conversas de minha mãe
Rodar pneu no terreiro pra depois tirar a mesa da tarde
De café, leite, broa e pão...


De café, leite, broa e pão
Frederico do Valle

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Livro digital de acesso gratuito lança olhar contemporâneo sobre o fandango Caiçara de Cananeia

 

Quando um mestre do fandango caiçara pede a benção de São Gonçalo, o padroeiro dos violeiros, e começa a cantar ao som de violas, rabecas e adufes em bailes animados, uma tradição secular está se renovando em Cananeia, cidade mais meridional do litoral do estado de São Paulo. Com a missão de difundir esta que é uma das mais ricas manifestações populares brasileiras, acaba de ser lançado para download gratuito pela internet o livro “Amanhece! Patrimônio, Memória e História do Fandango Caiçara em Cananeia”, iniciativa da organização social Ponto de Cultura Povos da Mata Atlântica e primeiro lançamento digital da editora independente Same Same.

Com raízes ibéricas e identidade genuinamente caiçara fortalecida no litoral Sul e Sudeste do Brasil nos últimos três séculos, o fandango caiçara é reconhecido, desde 2012, como Patrimônio Cultural Imaterial nacional. Em Cananeia, primeira vila fundada pelos portugueses no Brasil, em 1531, o fandango encontrou um terreno fértil para se desenvolver como prática festiva de integração comunitária ao final de mutirões nas comunidades tradicionais caiçaras do município. O livro “Amanhece!” revisita essa trajetória ao longo de 124 páginas com links para vídeos, áudios e até histórias em quadrinhos que buscam aproveitar o melhor das ferramentas online disponíveis para livros digitais.

Idealizado pelo educador Cleber Rocha Chiquinho e escrito por ele, pela jornalista caiçara Catharina Apolinário de Souza e pelo também pesquisador de cultura caiçara Fernando Oliveira Silva, “Amanhece! Patrimônio, Memória e História do Fandango Caiçara em Cananeia” revela a mais importante manifestação popular da cidade também pela sua faceta contemporânea. As participações crescentes de jovens e de mulheres nas apresentações musicais, poéticas e coreográficas evidenciam a renovação do fandango em meio a um cenário que conta com sete grupos em atividade no município, em uma mistura criativa de mestres e aprendizes.

Das canções passadas de pai para filho nas famílias Pereira e Neves aos desafios para manter viva a tradição no quilombo do Mandira, das diferenças entre as danças à incorporação de novos instrumentos musicais, uma série de histórias curiosas faz do livro uma referência inédita no universo da cultura popular. Tanto as entrevistas quanto as belas fotos de Maurício Velloso que se somam ao acervo do grupo foram produzidos em meio aos desafios da pandemia de Covid-19 com verba aprovada em edital pelo Programa de Ação Cultural (ProAC) 2020, da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo.

“Amanhece!” é uma iniciativa multiplataforma da organização social Ponto de Cultura Povos da Mata Atlântica e faz parte do Programa Puxirão, que desde 2009 trabalha para salvaguardar, registrar e disseminar o fandango caiçara. Para o fandangueiro Beto Pereira, “esse trabalho vale ouro. Esta turma merece um troféu por fazer este trabalho, em plena pandemia, para valorizar o fandango, que é a minha vida e a maior alegria que tenho”, afirma. O fundador do Ponto de Cultura Povos da Mata Atlântica, Fernando Oliveira, credita todo o mérito aos fandangueiros. “O fandango é uma cultura viva que precisa ser valorizada. Nosso objetivo era lançar o livro presencialmente, com um grande baile caiçara, mas decidimos adiar devido à pandemia. Esperamos que no segundo semestre possamos realizar esse evento”, continua Fernando.

“Amanhece!” celebra a parceria do Ponto de Cultura com os jornalistas Catharina Apolinário de Souza, coautora dos textos, e Daniel Nunes Gonçalves, editor da Same Same, editora independente voltada para temas sobre diversidade cultural. O design é assinado pelo diretor de arte Ricardo Godeguez, finalista do Prêmio Jabuti em 2020, na categoria projeto gráfico, pelo livro anterior da Same Same, “Paisagens Gastronômicas”, sobre pequenos produtores de alimento do estado de São Paulo. Quem assina o prefácio é a educadora Maria Rita Basso, radicada em Cananeia. Por fim, as ilustrações ficaram por conta do criativo artista visual Bruno Romão, que tem um trabalho de pesquisa sobre cultura popular brasileira, cultura urbana e memória. Este coletivo multidisciplinar acredita na cultura, na arte e na educação como ferramentas de transformação da sociedade.

Para acessar o livro: https://bit.ly/livroamanhece



Texto extraído de: https://www.kleberpatricio.com.br/arte-cultura/livro-digital-de-acesso-gratuito-lanca-olhar-contemporaneo-sobre-o-fandango-caicara-de-cananeia/

"Outras Américas" de Sebastião Salgado

 

O livro “Outras Américas” (1986), do fotógrafo brasileiro,  Sebastião Salgado. registra os povos da América Latina e é o resultado de um trabalho fotográfico realizado entre 1977 e 1983.

Salgado saiu do litoral do Nordeste brasileiro e passou por cidades da Bolívia, Chile, Peru, Equador, Guatemala e México.

“Outras Américas” é um relato visual que impressiona pelo lirismo contido nas imagens, o que se explica pelo fato de o fotógrafo na época estar afastado do país.

Como diz no prefácio da edição, “meu único desejo era voltar à minha terra bem-amada, para meu Brasil do qual um exílio um pouco forçado me obrigou a me afastar”.

Por outro lado, é uma pesquisa rica que mostra as condições de vida dos camponeses e a resistência cultural dos indígenas latino-americanos e de seus descendentes.

As mensagens trazem a marca registrada do autor e confirmam que Salgado é um fotógrafo fascinado pelo ser humano.

As fotos dessa obra baseiam-se nesse ímpeto de fascinação, fazendo o artista primar pela captação do universo humano e geográfico.


Por essa razão, o livro é uma documentação iconográfica valiosa, em que a composição e a percepção visual enunciam a expressão do autor filtrada pelas luzes e contrastes em preto-e-branco.

No plano histórico, as 120 páginas fazem uma espécie de resumo da América Latina, evidenciando seu lado místico e religioso entremeado pela miséria e pela morte. Também mostra o quão, como Latino Americanos, colonizados, trazemos semelhanças.



Texto extraído de: https://artenocaos.com/fotografia/sebastiao-salgado-outras-americas/