quinta-feira, 31 de maio de 2018

O senhor Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo


Obra sem similar na língua portuguesa, o Dicionário do folclore brasileiro reaparece conforme a última edição revista pelo autor. Milhares de verbetes sobre as superstições, crendices, mitos, danças, lendas, práticas mágicas adotadas e vividas pelo povo brasileiro em seu cotidiano.

Uma das obras mais importantes de Câmara Cascudo foi o Dicionário do Folclore Brasileiro, que contou com sua primeira edição em 1954. Organizado pelo autor e composto por verbetes classificados por ordem alfabética, escritos por vários estudiosos da cultura nacional, o livro pretendia reunir o universo folclórico das danças, cantos, festejos populares, figuras indígenas, personagens míticos, instrumentos musicais e tudo aquilo que se relacionasse com a cultura brasileira. 

A obra procura mostrar que todos os países do mundo, com seus diferentes grupos humanos, possuem um conjunto de tradições que compõe um patrimônio transmitido oralmente e que deve ser conservado e defendido através dos costumes. Tal conjunto seria também contemporâneo, porque cresce ao anexar os conhecimentos diários e as transformações pelas quais sofrem os grupos nos dias contemporâneos.



Também defende que o folclore é imortal e irá permanecer no tempo e no espaço por tempo indeterminado – ainda que exista um folclore específico relacionado aos períodos industriais, com seus mitos da grandeza das máquinas. Ou, então, que existiu um “folclore” na Babilônia ou na Grécia Antiga, ou seja, um conjunto de conhecimentos individuais ou coletivos que se tornaram de todo aquele povo e foram transmitidos para as gerações seguintes. 

Os verbetes da obra tratam dos mais variados temas. Ainda que a organização seja alfabética, poderíamos dividi-los, em primeiro lugar, entre aqueles que versam sobre as festas tradicionais, folguedos e bailes, com explicações de manifestações como o bumba meu boi; em segundo lugar, estariam as bebidas e os alimentos populares, como a forma tradicional de fazer rapadura; e, em terceiro lugar, estariam as visões e assombrações que são conhecidas por todo o Brasil, como a mula sem cabeça, o boitatá ou o lobisomem. 

A partir de então, os verbetes passam a tratar das danças características de nosso país, como o frevo ou o maracatu. Em seguida, fala-se das lutas e das artes, como a capoeira. Há uma atenção especial para o legado indígena em nossa cultura. Por fim, os autores demandam alguns verbetes para os elementos religiosos populares, como os banhos de cheiro, as defumações e as “defesas mágicas”, como os amuletos e muyraquitãs, muito comuns em algumas regiões do país.




Fonte:
http://www.clickideia.com.br/portal/conteudos/c/36/23600

Casos eternamente de Minas


por Frederico do Valle

Casos de Minas, de Olavo Romano, é um dos livros que guardo na cabeceira da memória...  Adquiri um exemplar em 1987, época em que o cheiro da terra já brotava em mim. 

Contador de "causos" incorrigível, Olavo em seu livro, surge na nossa frente com aquela desenvoltura natural e nos transporta para o interior de Minas, lugar que conhecemos bem. Terra onde tudo cabe. O café com broa, a conversa fiada ao redor do fogão, o calor humano de gente antiga...

Conheci pessoalmente o Olavo durante o Projeto Sempre Um Papo em Juiz de Fora, onde entoei a Folia de Reis "Ribeirão Encheu", ouvimos Seu Antônio e Olavo contar suas estórias, estórias de todos nós. Bem, é isso que acho deste livro, um livro de todos nós, porque nos sentimos pertencentes a este cenário, a esta vida e seus casos...

O Inquérito de Monteiro Lobato sobre o Sacy-Pererê


por Gilberto Cruvinel


"O Sacy-Pererê: Resultado de um Inquérito" é o primeiro livro do escritor Monteiro Lobato, publicado em 1918, a partir de uma série de depoimentos reunidos pelo autor e publicados no jornal "O Estado de S.Paulo" sob o título: "Mitologia Brasílica – Inquérito sobre o Saci-Pererê". Este material depois se converteu no primeiro livro a tratar da crença no Saci, um dos personagens mais conhecidos do folclore brasileiro. Lobato, porém, não assinou a obra como autor, considerando que seu papel havia sido de editor dos textos enviados. Esse trabalho estendeu-se ao público infanto-juvenil, com a publicação, em 1921, do livro "O Saci", inscrito no universo do "Sítio do Picapau Amarelo".

Leia e aprecie AQUI a versão digitalizada do livro  "Sacy-Pererê: Resultado de um Inquérito" de Monteiro Lobato.

 A pesquisadora Míriam Stella Blonski revela em sua  tese " SACI, DE MONTEIRO LOBATO: UM MITO NACIONALISTA"  que o inquérito de Monteiro Lobato, que obteve grande repercussão na época, foi constituído de vários depoimentos, reunidos pelo escritor em livro com cerca de 300 páginas e tiragem inicial de dois mil exemplares. Segundo Blonski, " ao resgatar o mito do Saci-Pererê, Monteiro Lobato o cerca de características brasileiras, utilizando não apenas suas próprias pesquisas, mas os depoimentos que obteve por ocasião do inquérito realizado através do jornal O Estado de São Paulo. Nesse momento, preocupado com o nosso desenraizamento cultural, resgata para o povo urbano a sua consciência original, que se encontrava enfraquecida em decorrência da grande infiltração das idéias européias."

Saci, de Monteiro Lobato: Um Mito Nacionalista
Míriam Stella Blonski
Mestre em Letras: Estudos Literários (Área de concentração: Literatura Brasileira) pela UFMG.

Monteiro Lobato foi um sonhador. Sonhou um Brasil progressista, transformador das realidades adversas que assolavam o País, como a doença e a verminose, a miséria econômica, especialmente entre as populações rurais. Empunhando suas grandes armas que eram o entusiasmo e a palavra, lança-se também em campanhas em prol do ferro e do petróleo nacionais, capazes, na opinião do escritor, de proporcionar aos brasileiros o progresso material de que necessitavam para vencerem os seus problemas. Acreditava ele, também, que era necessário descobrir e conquistar aquilo que constituía o cerne do povo, sua força, sua razão maior: a sua brasilidade. Essa brasilidade podia ser traduzida, entre outras idéias, pelo rompimento com as influências estrangeiras, principalmente européias, e pela busca de autenticidade e pureza nas manifestações do povo. Segundo Lobato, era preciso acordar os brasileiros, demovê-los da prática nociva de camuflar os problemas do país, de enfeitar a desgraça, levando-os às atitudes positivas de buscar e praticar tentativas de solução para esses mesmos problemas.

O pioneirismo de Monteiro Lobato o fez privilegiar o Saci-Pererê como símbolo do espírito nacional, uma espécie de produto da fantasia imaginativa das três raças formadoras do povo brasileiro, importante mito da Cultura Popular e do Folclore.

O Saci inscreve-se num tema que pertence às raízes e ao patrimônio cultural do Brasil. Sua função é, principalmente, contribuir para a preservação da cultura brasileira.

Ao resgatar o mito do Saci-Pererê, Monteiro Lobato o cerca de características brasileiras, utilizando não apenas suas próprias pesquisas, mas os depoimentos que obteve por ocasião do inquérito realizado através do jornal O Estado de São Paulo. Nesse momento, preocupado com o nosso desenraizamento cultural, resgata para o povo urbano a sua consciência original, que se encontrava enfraquecida em decorrência da grande infiltração das idéias européias.

O ano de 1917, em que Lobato realiza o inquérito sobre o Saci, que recebeu o nome de “Mitologia Brasílica – Inquérito sobre o Saci-Pererê”, apresenta-nos um quadro de crescimento das cidades, de industrialização ascendente, fazendo surgir categorias profissionais típicas das zonas urbanas, como operários, profissionais liberais, militares, etc. provocando, cada vez mais, o afastamento das atenções, do cenário rural. Fazendeiros, colonos e sitiantes dirigiam-se para a cidade, em busca de oportunidades de trabalho. Enquanto isso, esquecido e isolado nos rincões do país, permanecia um tipo rústico, até certo ponto puro, que não se deixava contaminar pelas influências da vida urbana: o caboclo. Em sua autenticidade, mantinha-se fiel à cultura caipira, cujos ensinamentos lhe foram legados através dos seus ancestrais, e que ele continuava praticando e transmitindo aos filhos. Como parte da sua cultura podemos citar as crendices, as superstições, os mitos nos quais ele acreditava, e entre eles, o Saci-Pererê.

O cenário acima descrito propicia o fortalecimento, nas letras e nas artes, de um sertanismo nostálgico, que focaliza a vida rural como modelo idealizado de sociedade a ser preservado. Lobato não se mantém alheio a essa tendência, e concentra sua atenção no caboclo,  personalizado pela figura do Jeca Tatu. Se, anteriormente, o escritor o descrevera como “selvagem, arredio, desconfiado, piolho da terra, parasita funesto, preguiçoso e maligno, inadaptável à civilização”, agora ele refaz sua opinião, passando a elogiar as qualidades do caboclo, tornando-se, dessa forma, seu aliado.
O inquérito de Monteiro Lobato, que obteve grande repercussão na época, foi constituído de vários depoimentos, reunidos pelo escritor em livro com cerca de 300 páginas e tiragem inicial de dois mil exemplares.

A capa do livro é vermelha, simbolicamente da cor do sangue, do fogo, e também do amor. Segundo o Dicionário de Símbolos, é a cor de Dioniso1 . Dioniso e também o demônio são representados comumente com chifres, símbolo da força e do poder. Provavelmente por essa razão, José Washt Rodrigues, autor do desenho do Saci que nela aparece, optou por apresentá-lo com essa característica: chifres curvos. Na cabeça tem o gorro vermelho, olhos também vermelhos e a boca apresentando dentes serrilhados, ponteagudos, vampirescos, numa alusão provável ao hábito do Saci de sugar o sangue dos cavalos. Sua expressão pode ser interpretada como irônica, zombeteira, e até um pouco maléfica. Tem o corpo de adulto, com uma perna só. Os dedos dos pés são apresentados abertos, mais animalescos do que humanos. Também podem ter sido apresentados dessa forma pelo hábito de andar sempre descalço e por longas caminhadas, o que deforma os dedos, engrossando-os e aumentando o espaço de um para o outro. Numa das mãos carrega uma espécie de pau, uma possível arma com que desfere bordoadas tanto em pessoas como em animais. Na outra mão, prende o costumeiro cachimbo aceso, fumegante. Ao seu redor folhas e traços que dão a impressão de movimento circular, como nos rodamoinhos, e também simbolizando o corpo em movimento. Esse desenho é coerente não apenas com as descrições dos relatos sobre o Saci, que constam nos depoimentos do corpo do livro, mas também remete-nos novamente à mitologia, tanto com Dioniso como também com faunos e com Pã.  

Lobato faz duas dedicatórias na abertura do livro. A primeira delas, em tom de sarcasmo, é para o “Bar Trianon”, local onde se reunia, em São Paulo, a elite do Estado, que absorvia a cultura européia, sem sequer cogitar em levar em consideração e muito menos praticar as variadas formas das riquezas culturais brasileiras. Esta primeira dedicatória reflete bem a intenção inicial de Lobato com o Inquérito, ou seja, combater a invasão do “francesismo” e de tudo o que descaracterizasse o elemento nacional. A segunda, num tom carinhoso, reconhecido e saudoso, é para a tia Esméria, e “de quanta preta velha nos pôs, em criança, de cabelos arrepiados com histórias de cucas, sacis e lobisomens...” 

Tia Esméria foi empregada na fazenda do pai do escritor, e freqüentemente contava histórias para a criançada, nas quais as personagens folclóricas eram presença obrigatória. Também aqui o escritor reforça seu combate, criticando o novo costume da sociedade, de entregar o cuidado dos seus filhos às governantas, muito bem pagas, denominadas por ele de “lambisgóias de touca branca, numa algaravia teuto-itálico-nipônica”. A função dessas governantas era, também, educar as  crianças, “civilizá-las” conforme os costumes e cultura estrangeiros, daí a revolta de Lobato.

As inúmeras cartas recebidas vieram de todo o país, mas principalmente de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Os missivistas eram pessoas que residiam tanto na zona rural quanto na zona urbana, alguns demonstrando cultura e erudição, outros se expressando de maneira simples, às vezes com o linguajar próprio do caboclo, eivado de expressões peculiares, fornecendo dados e descrições do Saci. 

Também houve a participação de negros ex-escravos e mesmo de seus descendentes. Até depoimentos de colonos italianos foram recebidos, o que comprova, em primeira análise, o conhecimento do assunto e a penetração do tema em várias camadas sociais, permanecendo vivo na lembrança das pessoas. Com os depoimentos ficou provado que as figuras míticas impregnam o imaginário do povo, especialmente dos habitantes de cidades do interior e da zona rural, mas também vivem entre os habitantes urbanos, fazendo parte de sua história de vida.

A publicação do livro representou uma espécie de depoimento-denúncia de  reafirmação da sua luta nacionalista, que se serviu, nesse caso, dos relatos dos depoimentos para estimular o nascimento de uma consciência nacional, ao mesmo tempo em que alertava para que se prestasse mais atenção no caboclo, desconhecido das populações citadinas e litorâneas, e na legitimidade do Saci-Pererê como representante significativo dos mitos, no Brasil.

O caboclo foi destacado por Lobato através da personagem Jeca-Tatu, uma espécie de símbolo do brasileiro, imagem do povo do interior. É preciso conhecer o povo, para melhor educá-lo. Quando ele se revela através de suas manifestações culturais, e entre elas as superstições, as lendas como a do Saci, está fornecendo elementos que possibilitarão idéias e estratégias para uma ação educativa que parta das suas reais condições e necessidades. O Jeca Tatu é seu representante autêntico, imune às influências que não sejam as dos seus pares e as do ambiente em que vive. Quando a tristeza lhe corrói a alma, toma o violão e entoa as canções que o sentimento lhe dita. Tem a natureza, a mata e a simplicidade como suas companheiras. Identifica-se com elas, compreende-as, interpreta-as. Ao cair da noite, quando o silêncio impera, se o caboclo ouve um ruído que não identifica, logo lhe vem a suspeita de que se trata de algo acima de sua compreensão. Nesse momento fala o medo, fala o sobrenatural: “É o Saci!” E o seu olhar percorre o ambiente à procura da cruz, presa no batente da porta.

A importância do Inquérito sobre o Saci, realizado por Monteiro Lobato, é atestada por vários escritores e estudiosos em geral. Entre eles, pode-se mencionar o antropólogo e folclorista Luís da Câmara Cascudo, que assim se expressa:

Quando se fala no Saci sabe-se do “inquérito” que Monteiro Lobato dirigiu e que resultados extensos denunciou para a existência fantástica do duende negrinho.

Com o Sacy-Pererê – resultado de um inquérito, Lobato apresentou aos brasileiros um mito com características ora demoníacas, ora cruéis, perpassadas por manifestações de ironia, de deboche e até mesmo laivos de bondade. Um perfil bastante variado, e, até certo ponto, controverso, que lhe fora apresentado nas diversas correspondências recebidas. Embora esse livro não tenha sido reeditado pelo escritor, o tema se manteve presente no seu pensamento. Anos mais tarde ele volta ao assunto, desta vez na sua obra infantil. Era necessário incentivar nos jovens o entusiasmo e a dedicação às causas brasileiras e ao País, o culto pelas origens e o amor pela terra, com destaque para a vida na zona rural, no campo, tão importante quanto a vida urbana. Desta forma, destacava-se também o homem que lá vivia, o caboclo, em continuidade às idéias defendidas anteriormente. No interior agreste habitava a lenda, a fantasia, o maravilhoso, a mula-sem-cabeça, e onde, às sextas-feiras de noite escura, podia surgir das trevas o lobisomem. Podia aparecer, ainda, cortando o vento e à garupa de um cavalo, o Saci-Pererê, iluminando a noite com seu capuz vermelho e com a brasa acesa do seu cachimbo.

Monteiro Lobato, no livro O Saci, publicado pela primeira vez em 1921, recria a personagem, suavizando-a. O nosso herói aparece, agora, com estatura de criança e atitudes brincalhonas, travessas. Suas peripécias são vividas no Sítio do Picapau Amarelo. A história é dividida em vinte e oito capítulos e narra desde a chegada de Pedrinho ao sítio, para passar as férias, seu encontro e aventuras com o Saci, até o encantamento de Narizinho, convertida em pedra pela Cuca, e o seu posterior desencantamento. Todos os episódios são mesclados pelo surgir de outros mitos folclóricos, acompanhados da respectiva explicação, muitas vezes pormenorizada pelo próprio Saci, que ocupa o papel de regente principal dos acontecimentos. Este papel o coloca na posição de herói, de certa forma reabilitando-o de ações maléficas que os depoimentos do Inquérito lhe atribuíam, e mesmo das pequenas diabruras que fazia. Monteiro Lobato, desta forma, lembra-nos a dualidade bem/mal existente nas criaturas, bem como a possibilidade da retratação do mal através dos atos generosos, das boas ações. Coloca o Saci, inclusive, numa categoria privilegiada entre os mitos no Brasil. Justifica-se, assim, não apenas sua curiosidade ligada às memórias da infância, mas também o interesse do adulto estudioso e pesquisador.

O processo de suavização da imagem do Saci-Pererê é iniciado por Monteiro Lobato não apenas na síntese da descrição do moleque, que acontece no livro O Sacy-Pererê – resultado de um inquérito, mas também no desenho a nanquim que ele faz, e que retrata o capetinha numa versão de criança, sem chifres, sem o porrete e com expressão observadora, desconfiada. Não tem mais aquela aparência cruel ou ameaçadora. O pitinho permanece, e os pés adquirem o formato humano. Essa modificação deveu-se, provavelmente, ao fato de que o livro O Saci é destinado, prioritariamente, para crianças, e o autor não tinha intenção de atemorizá-las. 

Além de recriar a personagem, Monteiro Lobato descreve-a, servindo-se do negro velho, Tio Barnabé, personagem do Sítio do Picapau Amarelo, conhecedor dos mistérios que cercam o homem rural. Tio Barnabé assim fala do Saci:

O Saci – começou ele – é um diabinho de uma perna só que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte e atropelando quanta criatura existe ... Azeda o leite, quebra a ponta das agulhas, esconde as tesourinhas de unha, embaraça os novelos de linha, faz o dedal das costureiras cair nos buracos, bota moscas na sopa, queima o feijão que está no fogo, gora os ovos das ninhadas. 

Quando encontra um prego, vira ele de ponta pra riba para que espete o pé do primeiro que passa. Tudo que numa casa acontece de ruim é sempre arte do Saci. Não contente com isso, também atormenta os cachorros, atropela as galinhas e persegue os cavalos no pasto, chupando o sangue deles. O Saci não faz maldade grande, mas não há maldade pequenina que não faça.

E segue sua narrativa, comentando o poder da carapuça vermelha, do hábito do cachimbo, das mãos furadas por onde passam pequenas brasas e ainda da peça que pregou no moleque, quando colocou pólvora dentro do próprio cachimbo, que o Saci gostava de usar. Ao começar o estouro foi uma risada só, e o Saci saiu correndo para não voltar por muito tempo. Falou da maldade que é feita na crina dos cavalos e do costume vampiresco de sugar o sangue dos pobres animais. Para evitar isso, usa-se colocar um “bentinho” no pescoço dos mesmos, protegendo-os. Convém explicitar que os bentinhos são escapulários que contêm gravuras de santos, pedaços de tecidos ou orações com o poder de proteção. Têm esse nome porque se benze para dar virtude. É comum encontrar escapulários no pescoço de crianças e mesmo de adultos da zona rural, ou mesmo em carteiras de dinheiro, costuradas a roupas, etc.

O objetivo de valorização da cultura nacional, que era uma constante em Monteiro Lobato, bem como o seu estudo sobre as personagens do folclore no Brasil, levaram-no a incluir no conto O Saci outras figuras do folclore, de conformidade com um dos aspectos de sua obra infantil: o caráter educativo. Aparecem, então, o Jurupari, o Curupira, a Iara, o Caipora, a Porca-dos-sete-leitões, o Negrinho do Pastoreio, a Cuca, o Boitatá, a mula-sem-cabeça e o Lobisomem.2

Lobato, ao destacar o Saci-Pererê e o Jeca Tatu, busca sugerir uma nova mentalidade nacional, e concentra seus esforços na literatura para crianças e jovens, cuja personalidade e caráter encontram-se em formação, e que pelo conhecimento mais apurado do povo e de seus costumes, poderia, mais tarde, elaborar projetos destinados à modernização e desenvolvimento do Brasil, calcados em bases nacionais e populares. Esta modernização traz implícita a característica do dinamismo, entendido como capacidade de adaptação e criação de novos valores e novos padrões culturais, para conviverem com novos tempos e situações.

Monteiro Lobato não fez apenas um registro da tradição oral mas, através do Saci, estabeleceu uma ponte entre o mundo da razão e as superstições e costumes próprios do povo, convidando-nos a uma reflexão sobre os elementos de resgate desse mito brasileiro, bem nacional. Procurar conhecer nossas lendas, mitos e costumes é uma forma de caminharmos para a independência cultural, ao invés de copiar e absorver passivamente os valores estrangeiros. Ao mesmo tempo é compreender que o Brasil possui elementos culturais próprios que, da mesma forma que nos individualizam, ligam-nos a todos os povos e países do mundo. Por outro lado, conhecer o povo é adquirir condições e criar formas de educá-lo. É possibilitar sua projeção para o futuro.

Monteiro Lobato, com o Jeca Tatu, o Saci-Pererê e exemplos da Cultura Popular e do Folclore, pretendeu acordar o povo brasileiro do seu estado de inércia, de inoperância, incitando-o à luta, a que ele próprio se entregou durante toda a sua vida. Uma luta em favor do “ressurgimento brasileiro de todos nós”. Seu combate legou à posteridade o exemplo de um homem que amou o Brasil como poucos, batalhando por sua terra e seu povo, legando aos brasileiros o tesouro de sua produção literária. Mostrou a todos o Saci-Pererê, que segundo as palavras do próprio escritor, é “pano de amostra, revelador de que esta terra tem uma alma”.

Notas                                                                                                                                                                                                                                                    
1. CHEVALIER, Jean;  GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. 2. ed. Trad. Vera da Costa e Silva et. alii. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1990, p. 945. Dioniso (Baco), deus do vinho, era filho de Júpiter e de Sêmele. Não representava apenas o poder embriagador do vinho, mas também suas influências benéficas e sociais, de maneira que era tido como o promotor da civilização, legislador e amante da paz.

2. Informações sobre as personagens folclóricas podem ser encontradas, em sua maioria, em Luís da Câmara Cascudo, nos livros: Dicionário do Folclore Brasileiro e Geografia dos Mitos Brasileiros.

Referências Bibliográficas

CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 7. ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda, 1988.

CASCUDO, Luis da Câmara. Geografia dos Mitos Brasileiros. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1983.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. 2ª ed. Trad. Vera da Costa e Silva et alii. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1990.

LOBATO, José Bento Monteiro. Urupês. 11. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 196.

LOBATO, José Bento Monteiro. O Sacy-Pererê – resultado de um inquérito. Edição fac-similar. Rio de Janeiro: Gráfica J. B. S/A, 1998.

LOBATO, José Bento Monteiro. O Saci. São Paulo: Editora Brasiliense, 1973.NUNES, Cassiano. O sonho brasileiro de Lobato. Rio de Janeiro: Gráfica Olímpica Editora Ltda, 1979.




Fonte:
https://jornalggn.com.br/blog/gilberto-cruvinel/o-inquerito-de-monteiro-lobato-sobre-o-sacy-perere



Geografia dos Mitos Brasileiros, de Luís da Câmara Cascudo


por Doney

 “Naturalmente o Negro, susceptível, crédulo, impressionável, é a melhor e mais ativa caixa de ressonância que pode existir para os mitos assombrosos, os pavores noturnos, os animais da fábula. A todos descreve com as tintas sensíveis de um medo sem fim. É um retocador magnífico, magistral, insubstituível. Demais, pela voz sonolenta das “Mães pretas”, recebemos o condão de ver e saber da existência terrível de todos os monstros, fadas, príncipes e encantos.

     A influência negra é, em parte, devida a sua inevitável solidariedade com os pavores que evoca. Ele narra com a “escapação aberta”, em pleno rumor, enchendo de barulho misterioso, de explicações sinistras, de justificações maravilhosas, os episódios mais simples, claros e naturais.

     Um fato dirá da profundeza dessa crença vertical, inamolgável, maciça. Um chofer de praça, em Recife, dizia-me, anos passados, que o bandido Virgolino Ferreira, o “Lampião”, era invulnerável por ter recebido um “patuá” da mão de um feiticeiro baiano. “Não há bala que não derreta como manteiga e faca se dobra como arame ao chegar em sua pele”, afirmava o negro motorista, sisudo e convencido. Quando Lampião morreu, casualmente encontrei meu informante e inquiri das virtudes miríficas do “patuá”. Não se perturbou.

     Lampião morreu porque deixara o “patuá” (oração-forte, amuleto, etc.) na barraca, quando fora tomar banho pela manhã. Não tivera tempo de recolocá-lo ao pescoço. Por isso morreu...
     Como obteve essas informações precisas? Ninguém lhe dissera. Ele sabia. E a fé continuava límpida, sem uma nódoa que empanasse o prestígio dos “patuás”. Esse chofer é, entretanto, um conhecedor habilíssimo dos motores de explosão, sabendo seu ofício como raros. A cultura profissional não lhe alterou em coisa alguma a mentalidade. E como ele, vivem milhares.”

*
     “No cadinho das florestas e das águas tropicais, o Olharapos se tornava Mapinguari. O Bicho-Homem era o Capelobo. As cobras encantadas convergiam para o reino das mboiaçú e das boiunas. Angústias noturnas amalgamavam-se em chibambas, negras velhas, mãos-de-cabelo, de palha e de fogo. Koboldes caprípedes apostavam velocidade com os Curupiras de cabeleira rubra, olhos verdes e pés ao avesso como seus irmãos clássicos, citados em Aulo Gelo. As lendas ornitomórficas floriam. Não mais em Filomelas românticas, mas na revoada dos Sacis de carapuça vermelha, unípedes e travessos como lutinos. Todas as águas-vivas, ardentes e eternas do Medo, do Pavor sem contorno e da Imaginação, desceram, por três boqueirões raciais, para a vertente de onde sairia o brasileiro...

     O português, batendo todo o Brasil com seus sapatões de bandeirante, carregava, em maior percentagem, seus mitos, herança inarredável e perpétua. Os mitos verdadeiramente “gerais”, que se mantêm com as linhas mestras, são de origem peninsular. Nenhum Saci-pererê, ignorado no norte e nordeste, nenhum Caapora, pouco definido em São Paulo e Minas Gerais, pode aceitar o desafio de medir-se com o Lobisomem que trota, cada sexta-feira, por todos os Estados do Brasil. O Mboi-tatá, verdade seja, acende seu clarão pelas cidades, vilas e caminhos, mas aceito normas europeias dos feux-follets, do Sant’Elmo, tendo estórias desencontradas, não se desenha, não se fixa, não se materializa. Os mitos portugueses, ou por eles trazidos, têm direito às prerrogativas do domínio.

     Seguem-se as de origem indígena. Os Tupi-guaranis deram a parte preponderante. Estavam em situação social e geográfica capaz de lutar, aliar-se, combater e fundir-se com o português. Subindo do sul para o norte, empurrando os Gês para leste, batizando quase dois terços da terra brasileira, foram os primeiros homens para o contato. Assistiram à primeira missa, testemunhas inconscientes do auto de posse, tropas auxiliares que ajudaram a destruição de si mesmos. Bateram, arrolados nas “bandeiras”, sul e norte, matando e morrendo. O idioma tupi era a língua de entendimento, o nhengatu, a língua-boa, plástica e musical, codificada nas gramáticas, gabada nos púlpitos, recitada nos autos festivos, nas orações milagrosas, nos bailes tradicionais. Foram até o labirinto amazônico, escorregando pelas margens, deixando as pegadas nas madeiras que dariam nome ao rio, em quase todas as orlas, rumando as cabeceiras, num impulso constante e cego, procurando uma terra onde não se morria e que era perto do céu. Ensina Teodoro Sampaio:

     Até o começo do século XVIII, a proporção entre as duas línguas faladas na colônia, era mais ou menos de três para um, do tupi para o português.

     O padre Antônio Vieira notava, no século XVII, que se falava o tupi comumente, naturalmente. O português estudava-se como elemento cultura, necessário, indispensável, mas secundário ao nhengatu, sonoro e dúctil. Aires do Casal informa que a língua portuguesa “começou a ser geral ou, para melhor dizer, a ter uso em 1755”. E disto se dava no Maranhão, lugar privilegiado.”

*
      “Nos mitos indígenas, Tupis, melhormente estudados, a influência portuguesa não consegue deformar por inteiro, mas os populariza velozmente. Os portugueses aceitaram os duendes das florestas tupis como seres normais e capazes de façanhas idênticas às dos seus trasgos e olhapins. A teogonia tupi alargou o âmbito de seus adeptos. Nas noites escuras o pavor passava das malocas indígenas para as casas-grandes, onde os colonos abriam os olhos espavoridos para a treva cheia de Curupiras e Lobisomens.

     O negro escravo veio com sua humilhação e seu amor infinito. A força dos seus mitos era religiosa, pedindo cerimonial, ritos, danças, comidas protocolares, indumentária. Um culto que seria clandestino, incompleto pela impossibilidade duma exata observância aos processos religiosos. Ainda hoje quando se estuda o negro brasileiro depara-se com a festa religiosa, com seus orixás e bailados, seus dias de preceitos, a crônica aventureira e valente dos deuses africanos, vencedores dos raios e das mulheres.

     Os mitos, na acepção folclórica do vocábulo, independendo de ritual, de religiosidade inata, são raros. Ninguém os vence no domínio do cerimonial, da religião hierática, severa, com dogmas, roupas, cores, passos, tradições. Frobenius ensinava que o africano só podia ser compreendido através da sua crença. A religião para ele não era um caminho, um liame, como o vocábulo significa, mas a razão, o “estado” do espírito, a própria duração da vida material. E como todas as coisas derredor participavam desse pathos, não é possível isolar do clima religioso negro um mito como os vemos saídos de europeus e indígenas.

     No Folclore brasileiro a influência negra se positiva nas danças, nas diversões de conjunto, em certos autos populares, numa parte musical, em determinadas danças de roda para homens, especialmente as de parelhas soltas ou coletivas, nas estórias e na parte infantil. Nesse mundo dos meninos, o Negro é todo-poderoso. Contou estórias, ressuscitou animais monstruosos, explicou tesouros, mostrou as estrelas, casamento de astros, pavores noturnos, recalques que ficam vivendo na recordação da meninice.

     Bem rara será a figura do ciclo da angústia infantil que não tenha muito dos negros. Nenhum mito geral, porém, resistiu aos anos nem foi registado, partindo dos velhos escravos. O próprio Quibungo é o negro-velho preador de crianças, gênero universal. Nas estórias em que o Quibungo não assombra crianças e aparece como um antropófago, creio já ter sido sua ação modificada por um outro mito, o de um gigante ou homem devorador de carne humana, cujo nome se perdeu. Mesmo assim não há originalidade nessa inusitada ação faminta. Todo o ciclo dos monstros é antropófago.

     Se o Negro é onipotente nas almas infantis, não o é nos espíritos maduros, afora a sedução dos ritos religiosos. Devemos sempre recordar que o Quibungo foi “justificado” pelos estudiosos brasileiros. Peça por peça, armaram-no no Brasil, com deduções, pesquisas, rastejando documentos, interpretando vocabulários. Em livro que nos tenha vindo da África, através de ingleses, portugueses, norte-americanos ou franceses, não se avista o vulto do Quibungo... Nenhuma aparição negra tem a extensão prestigiosa do Lobisomem, do Caipora, do Saci, da Mula-sem-cabeça, sabidos em todos os lábios brasileiros. O Quibungo surge na Bahia, centro de densidade africana, mas não emigra. As regiões vizinhas não conhecem. A faixa da sua influência é limitada e para que a transponha é preciso mudar aspecto e técnicas, ingressando no ciclo de outros pavores.”

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     “Uma característica dos mitos e das tradições fabulosas no Brasil é o fáceis ambulatório, infixo, irregular. Nenhum mito-de-presença, sedentário, com atribuições determinadas, inamovíveis. Se esta peculiaridade aparece nos mitos secundários, e os chamo “regionais”, dando-lhes assim um foro jurídico para demandá-los em matéria de Folclore, analise-se que nenhum mito regional guarda traços que o vinculem ao local de sua atuação. O sinal distintivo é apenas a exigência de meios físicos, águas, árvores, terras ou ares. Nunca solicitam a um determinado lugar a razão de sua existência miraculosa. Os nossos são mitos de movimentos, de ambulação, porque recordam os velhos períodos dos caminhos, dos rios, das bandeiras, de todos os processos humanos de penetração e vitória sobre a distância. Quase sempre são mitos cuja atividade é apavorar “quando passam” ou “correm”. Curupiras, Caiporas, Mapinguaris, Sacis, Lobisomens seriam ineficazes em atitude hirta, como uma parada de monstros. Mesmo nos rios, lagoas e mar, os seres assombrosos não têm pouso fixo. Nadam para aqui e para além. A Loreley não deixa seu rochedo no Reno. A nossa Iara é campeã de distância a nado livre...”

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     “No Brasil, pelo que sabemos, o culto indígena mais espalhado e seguido, o verdadeiro culto nacional, era o de Jurupari. A catequese religiosa foi obrigada a transformá-lo em Demônio. Não era possível converter-se Jurupari porque os pajés seriam alistados na classe sacerdotal. Achado o Princípio do Mal, havia a necessidade do Princípio do Bem, o Deus-bondade e Criador, uma égide indígena onde a concepção do Iavé hebreu e do Deus-Pai católico pudesse caber e ser entendida. O indígena assimilaria a religião nova se esta viesse por intermédio de formas suas conhecidas. Em todos os processos divulgatórios a adaptação é o primeiro e maior fator de vitória. Quando o missionário enfrentou o africano, explicou que Olurum (o céu), forma dúbia e vaga que não possuía liturgia, era Deus que ele vinha anunciar. Elegbá, o nume carnal, protetor da junção amorosa, anteriormente tido como uma força, um deus invisível, depois manifestado pelas festas fálicas, foi identificado, sendo devasso e lascivo, no próprio Diabo.

     Muito mais vago que o Olurum dos negros nagôs, era o Tupã dos ameríndios brasileiros.
     Era como o Sita dos árias, o Ma dos egípcios, o Tau dos chineses, o Morai dos gregos, entidade acima das contingências humanas, inacessível às súplicas, indiferente aos destinos terrenos. Não tinha a manifestação inicial dos cultos primitivos, que é a lenda explicativa, o conto etiológico. Não fazia milagres nem tinha forma.
     Era Tupã o que os folcloristas ingleses chamam Nature God, personificação abstrata de forças cósmicas, com atuação meteórica, sem interferência na vida sublunar. Pertencia à fase inicial das religiões. Era um elemento que Durkheim dizia préanimiste. Lévy-Bruhl escreve que, nas sociedades primitivas, todas as funções de relação são funções de presença de seres sobrenaturais. E como toda participação tende a ser representada nos fenômenos meteorológicos, que deviam impressionar maiormente aos indígenas, era natural que certos seres fossem apontados como dirigindo o trovão, o raio, o relâmpago e a chuva. Antes, esses fenômenos seriam deificados intrinsecamente. Na fase atual é que a diversificação se completa.”
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     “Quem tenha estudado detalhadamente os mitos indígenas do Brasil, ouvido o silvícola, deduzidas as tradições de sua história complexa, terá a conclusão de que eles foram quase sempre observados através da lua europeia, da alma europeia e da mentalidade branca. Nós, inconscientemente, fazemos da nossa moral e costumes, dos nossos dogmas religiosos e padrões estéticos, outros tantos pontos de referência para ajuizarmos o nosso irmão da mata. O resultado é conseguirmos um ser deturpado, misto de malícia e pavor, de bestialidade feroz e de ingenuidade encantadora. Creio que é erro. O índio não é problema desde que o olhamos com os olhos indígenas.

     Um desvio inicial que retarda tanto a compreensão da psiquê ameríndia é sua teogonia que julgamos complexa e pueril.

     Nós começamos a orar, venerar, temer e amar, a sabermos a origem da espécie e do mundo, dirigindo-nos continuamente a um Pai, Deus-Pai. O primeiro Ser, o Supremo Ser, o Que-sempre-foi-e-será, é um Homem.

     Com os índios é isso mesmo às avessas. É um ser feminino, a Mãe, Ci. Acreditavam os índios que tudo no mundo, vegetal, animal, mineral, possui sua criadora, protetora e guiadora eterna. Têm a Mãe do vento, das pedras, dos frutos, de cada tipo de peixe, de insetos, de aves, árvores, estrelas, vermes, cobras, fantasmas. Há a mãe da mandioca como há a mãe da coceira. Tudo tem Mãe e esta gerou seus filhos sem a necessidade do elemento viril. Todos os indígenas sabem de cor a Mãe disto e daquilo, mas ninguém sabe o nome do Pai. O Pai é um detalhe inútil. Ci sempre desconheceu o segredo da reprodução sexuada.

     Eis por que na teogonia tupi todos os grandes deuses são femininos. O Sol é Goaraci, Mãe deste Dia, mãe dos viventes. A Lua é Mãe-nossa, mãe dos vegetais. A tradição das virgens-mães é contínua na América como na África e Ásia. O fecundador desses Ci é um ser que ainda não preocupou a inteligência selvagem. Indicar o aéreo Tupã para esse mister é apenas uma hipótese sem a mais longínqua documentação lendária ou erudita.

     Devia haver, abstrata e vaga, a noção de um Ser Supremo. Mas, como Olurum vive através dos seus “orixás”, bem podia esse Criador atuar por um de seus atributos, o sol, o trovão, a luz, a chuva. Infelizmente nenhum Pajé acedeu em conceder uma entrevista detalhada. Tido como ministro de Satanás, aderiu, fugiu ou morreu, levando seu segredo para o silêncio perpétuo. Devia haver o Ser Supremo, mas este pertenceria a uma classe minoritária, restrita, de eleitos, capazes do entendimento, velhos iniciados nos meandros do suprarreal. Tupã, deus longínquo e sem a indispensável moldura do sacerdócio, só teve as honras das oblatas quando os abaúnas desceram das naus e plantaram, no solo vermelho da Pindorama, a cruz de Cristo.

     Tupã era primitivamente o trovão e depois o ente que o governava. Na teogonia brasileira não era citado e quando aparecia era em lugar secundário. Não encontraram mais sua história nem suas aventuras, além das burlescas e trágicas de Brandão de Amorim. Não tinha Pajé, nem dança, nem festa, nem cerimônia, nem crentes, nem tradições. Foi aproveitado pela inteligência catequista, como noutros países o fizeram, para antepor-se à religião local e dominante. Os elementos colonizadores e posteriormente o curiboca, além da população aborígine cristianizada, aceitaram e propagaram o mito artificial de Tupã e ele foi o único a ser tolerado e prestigiado. Popularizado nas orações feitas pelos jesuítas, passou para a literatura como o Deus dos Índios Brasileiros.

     O Sr. Gabriel Gravier, Presidente da Sociedade Normanda de Geografia, publicou um Étude ser le Sauvage du Brésil (Paris, 1881). À p. 47 escreve:

     Tupã é um Deus grande, poderoso e terrível, Ele se manifesta como o Senhor de Israel, por trovões e relâmpagos. Ele esta em toda parte, ele fez tudo. Seu nome significa quem é. Este é o Deus latino desconhecido*.

     Essa foi a mentalidade que divulgou Tupã para os eruditos da Europa. Findo o impulso cristianizador o movimento não se deteve e Tupã continuou, deformado e canhestro, no seu trono inexpressivo. Nunca merecera do indígena um gesto espontâneo de pavor ou respeito. Isto basta. Não há Deus sem liturgia.”

*: tradução livre

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     “O Diabo estava em toda a parte. Aconselhava, dirigia, trabalhava como servo, ajudava. Sabiam até fazer um demoniozinho e alimentá-lo de sangue humano, sugado pelo dedo mínimo, ou sustentá-lo com azeite doce. As judias e ciganas tinham o monopólio desse fabrico assombroso. As bruxas podiam tanto quanto os bispos e os ricos mercadores. Com as trevas da noite as cidades coloniais eram sacudidas pelos uivos dos bichos assombrosos, nascidos pela vontade dos feitiços, no fundo do mistério.

     Para ter-se uma visão da mentalidade, basta a leitura das atas e depoimentos de Visitação do Santo Ofício na cidade do Salvador e Pernambuco. Paulo Prado publicou dois tomos e a Sociedade Capistrano de Abreu um outro. São “instantâneos” sem retoque da época e dos meandros por onde escorria uma fé detalhista, sinuosa, pragmática e hirta. Fernão Cardim, ex-provincial, jesuíta culto, inteligente, cronista delicioso e claro, reitor do Colégio da Companhia de Jesus, denunciou Jorge Martins pelo crime de ter dito que Deus tinha mão direita. O vigário de Tassuapina, padre João Fernandes, denunciou a João Batista por este ter dito que justo só Deus, esquecido que a Virgem Maria, São João Evangelista foram justos e o são assim como o velho Simeão é tido pela Igreja como vir justus et timoratus. A feiticeira Maria Gonçalves, conhecida por “Arde-lhe o rabo”, estava convencidíssima de conversar todas as noites com os diabos. Toda a Europa tremia com medo do Senhor das Trevas. Ainda na primeira metade do século XVIII, dom João V de Portugal e o cardeal da Mota, secretário de Estado, mandavam as negras da Guiné fazer amuletos contra o mau-olhado.”

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     “Na luta da catequese os jesuítas se convenceram de que a argúcia dos Pajés e seus conhecimentos médicos, meteorológicos e topográficos, deviam vir do Demônio, padroeiro dos irreligiosos. O indígena não tinha oração nem tributo pessoal para a divindade. Tudo se fazia coletivamente e sob a direção do Pajé decrépito. A campanha catequizadora orientou-se contra o Pajé como para uma vertente lógica por onde todas as águas malsãs escoavam envenenando os ares limpos. Não conheciam Deus. Era o depoimento unânime dos cronistas. Nem uma fé têm, nem adoram a deus algum (frei Vicente do Salvador). Esta gentilidade nenhuma coisa adora, nem conhecem Deus (padre Manuel da Nóbrega). Além de não revelarem conhecimento nenhum do verdadeiro Deus, não adoram nem confessam deuses falsos, celestiais ou terrestres (Jean de Léry). Nenhuma criatura adoram por Deus (padre Anchieta). Este gentio não tem conhecimento algum de seu Criador, nem de coisa do céu (padre Fernão Cardim). Não adoram coisa alguma (Pero de Magalhães Gandavo). Não tinham espécie alguma de religião (Cláudio d’Abbeville). Sem fé, sem lei, sem religião (André Thevet).”

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     “Retina de civilizado deforma ao mirar as histórias incompreensíveis.”
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     “Os deuses da teogonia tupi são andróginos. Têm em si os órgãos de fecundação e da reprodução. Independem da divisão dos sexos. Goaraci, o Sol, e Jaci, a Lua, deuses superiores, são ambos femininos e criaram tudo que existe na terra. Todos os indígenas falam na Mãe-do-rio, mãe das aves, dos peixes, das pedras, das rãs, das flores, das moléstias etc. Mas não falam no progenitor. Parece mesmo que houve um período longo de matriarcado porque Jurupari, o reformador, retirou o governo das mãos das mulheres e entregou-o aos homens. Não seria coisa invulgar a concepção sem a pesquisa da paternidade subsequente. Depois é que não se pôde admitir o fruto sem o semeador.

     Existia no Brasil o Ipupiara, informe e mau. Mães-d’Água, Iaras, botos dom-juan são somas de estórias da Europa e África convergidas para objetos que despertaram a curiosidade pela anormalidade dos costumes. O Ipupiara passou a Mãe-d’Água. O Boto recebeu a herança erudita do golfinho páfio, egresso dos cultos dos portos gregos, onde abrolhou Vênus, citérea ou páfia. A Iara é europeia. O índio não a conheceu outrora. Hoje é natural que a diga velhíssima, uma vez que, há três séculos, a lenda escorre pela sua memória. Impossível aceitar na íntegra toda documentação dos estudiosos. Hartt registra um episódio em que uma Uiara toma a forma de uma veada para seduzir um caçador na serra do Ererê. Evidentemente essa veada é um despautério para um mito fluvial. Trata-se de Anhanga... mas isto é outra estória, but that is another story, como diria Kiplin.”

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     “Onde vai o Homem, com ele viajam seus pavores.”




Fonte:
https://jornalggn.com.br/blog/doney/lista-de-livros-geografia-dos-mitos-brasileiros-de-luis-da-camara-cascudo