terça-feira, 6 de julho de 2021

Cultura Popular e Comunicação: A Folia de Reis em Bairros Populares de Juiz de Fora/MG












A bandeira e a máscara: estudo sobre a circulação de objetos rituais nas Folia de Reis


Esta tese aborda o lugar que certos objetos ocupam em sistemas de trocas de natureza ritual. Adotando os objetos materiais como ponto de vista para observar essas relações, enfatiza-se o modo como eles estabelecem mediações entre domínios sociais e cosmológicos diversos, desencadeando transformações sociais e simbólicas. O foco da descrição e análise é a circulação da bandeira e da máscara no contexto social e ritual das folias de reis, empreendimento festivo que ocorre em grande parte do território brasileiro. Trata-se de grupos de cantores e instrumentistas que realizam anualmente visitas rituais às casas de devotos, distribuindo bênçãos em troca de donativos destinados à festa dedicada aos Reis Magos. Etnograficamente, a bandeira e a máscara se insinuam enquanto símbolos dominantes, apresentando-se de forma complementar e produzindo reflexos no plano das ações sociais e rituais. Procura-se mostrar como esses objetos, ligados entre si pelas pessoas que coletivamente os manipulam, materializam vínculos fundamentais, pondo o sistema em movimento e permitindo a emergência de novas idéias e sentidos. Acompanha-se o deslocamento das folias de reis por contextos multiculturais, quando os objetos passam, então, a ser vistos a partir de “enquadramentos” particulares, ganhando novos significados.

Giro das saias: o embrionário empoderamento feminino na manifestação artística e cultural da Folia de Reis



Esta pesquisa foi guiada pelo desejo de mostrar e analisar a trajetória de mulheres no contexto androcêntrico das Folias de Reis da cidade de Leopoldina – MG. No transcorrer da pesquisa foi possível compreender que a mulher não se inseriu tardiamente nesse universo, como possa supor um observador descontextualizado e apressado. Na verdade ela sempre esteve intrinsecamente inserida, envolvida e absorvida pelas demandas da manifestação em honra aos Santos Reis, porém em lugares e funções invizibilizados. Por um viés interdisciplinar, tangendo perspectivas etnográfica, sociológica, antropológica, histórica e com um olhar sensível para o contexto artístico que se desvela, o desafio foi lançado com a necessidade de análise das relações de poder existentes em uma encruzilhada onde se encontram religião, mulher e folia. Como se estruturou essa relação no passado, que desdobramentos tal relação contemplam as mulheres hoje e como sua agência atual, suas possibilidades de liderança que já se legitimam, projetam um futuro feminino nas Folias de Reis se expressam como demandas essenciais desta pesquisa. Para refletir sobre isso se tomou por base 4 grupos de folias leopoldinenses: Folia da Serra, Folia dos Colodinos, Folia da Maú e Folia da Luíza. Quais caminhos as líderes de folia traçaram ou lhes foram oferecidos que não se desvelaram para as outras que continuam à margem das esferas de visibilidade e poder da folia? Teriam esses caminhos tão diversos base religiosa? Quais legitimações e proibições mitológicas, representantes de uma estrutura de pensamento, se impuseram no refreamento ou impulsionamento da agência autônoma das mulheres nesse cenário? Tais questionamentos suscitaram uma investigação rizomática, que demandaram uma análise balizada pela categoria de gênero que só se anuncia plenamente na interseccionalidade. Assim, foram perscrutadas religiosidades, estruturas míticas, submissão e liderança femininas em contextos diferentes unidos somente pela lógica da devoção aos Santos Reis. Esteticamente e artisticamente é possível perceber semelhanças profundas entre os grupos, porém a dinâmica de poder que se articulam em seu interior e a pertença religiosa que possui relação íntima com as esferas de poder, diferenciam de maneira sensível suas identidades, atitudes, escolhas e caminhos a seguir e trilhar. São as tensões e ressignificações desses caminhos que nos debruçamos a percorrer e perscrutar suas causas e consequências, que se desvelam e se expressam em uma tradição cultural cambiante devotada a santos peregrinos.

As Folias de Reis: uma leitura da cultura mineira mediada pela comunicação


O objeto de estudo dessa pesquisa é a Folia Estrela do Oriente, de Juiz de Fora, Minas Gerais, no período entre 2010 e 2011. Nosso objetivo principal é inserir o estudo das Folias de Reis no contexto das pesquisas recentes da comunicação. Por meio das simbologias constituintes das Folias, investigamos as re-significações e as readaptações, elaboradas no seio das comunidades que produzem e reproduzem as festas. Procuramos, principalmente, compreender de que forma tal ritual popular dialoga com os meios massivos. Para tal, foram investigados os aspectos comunicacionais dos rituais. Suas mitologias sobrevivem por meio (e apesar) da sociedade industrial e digital. Nossa questão-problema é: de que maneira o ritual das Folias de Reis dialoga com a comunicação de massa? A pesquisa mostrou que, em culturas mestiças, flexíveis e móbeis, o popular e o massivo, o oral e o escrito, o aberto e o fechado, o centro e a periferia dialogam em tensão, incorporando elementos alheios e rompendo com oposições. Foi analisado, portanto, o diálogo entre o popular e o massivo, questão de suma importância em nossa cultura, constantemente reelaborada a partir da incorporação do alheio, formando novos textos em rede e mosaico. Nosso suporte teórico principal está nos estudos da comunicação que investigam as mediações entre cultura popular e de massa; como as manifestações populares e folclóricas são incorporadas e reelaboradas pela indústria cultural, que propiciam projeções e recriações simultaneamente? Outro ponto do trabalho é a figura do Palhaço, personagem importante da Folia, e suas máscaras que, carregadas de representatividade, disfarçam, amedrontam e escondem, permitindo ao homem apresentar a sua condição de ser e não ser . Nestas máscaras estão presentes o lendário, o sagrado e o profano, em estampas do grotesco que se apropriam de um barroco traduzido em exuberantes fantasias, desenhando o território do mestiço. Assim encontramos os mascaramentos atuais que, numa apropriação simbólica, mostram as experiências cotidianas que deixam marcas , ou máscaras sociais , criando possibilidades de camuflagem. Contribuem, para nossa fundamentação, pensadores da teoria das mediações, como Néstor García Canclini e Jesús Martín-Barbero. Das teorias da mestiçagem, podemos citar, Amálio Pinheiro, Serge Gruzinski, Peter Burke, Iuri Lotmam, Laplantine

Para acessa a tese na íntegra:


Livro narra violento fim do Arraial do Curral del Rei e criação de BH

 

Em Arraial do Curral Del Rei – A desmemória dos bois, 34º título da coleção BH. A cidade de cada um, da Conceito Editorial, Adriane Garcia aborda o encantamento com a linda cidade que nasce e, ao mesmo tempo, que se choca com o desencantamento da promessa não cumprida dos benefícios do progresso. Excludente, este chega para poucos. "O projeto de Aarão Reis se constrói como se aqui fosse tábula rasa. É violento, não considera aqueles que viviam no local, dispensa o registro de sua memória. Trata-se da planta de uma cidade ideal, desenhada, e não só os habitantes, mas também a natureza, os rios, as paisagens, vão ter de se submeter", afirma Adriane Garcia, escritora e historiadora.


Eram excelentes as condições oferecidas pelo Arraial do Curral del Rei para que ali fosse implantada a primeira cidade planejada da República: o lugar registrado nos livros de história para a fundação de Belo Horizonte estimula a imaginação do idílico. Agradável era o clima; cortadas por rios e córregos, belas eram as paisagens entre as serras do Curral e de Contagem, da Piedade e Vale do Paraopeba. Aqui, a 100 quilômetros da então capital, Ouro Preto, o engenheiro Aarão Reis arrancaria de sua prancheta, inspirado no modelo das mais modernas cidades do mundo, Paris e Wa- shington, os traçados das avenidas em diagonal.


Era o progresso, o triunfo republicano. "Belo Horizonte foi construída para ser o marco zero. E isso não é verdade, pois quando foi colocada nesse lugar existia aqui uma gente, uma história, desde o século 18. E a essa gente desse arraial, que se chama do Curral del Rei, não é dada nenhuma escolha. São despejados. E, obviamente, com a indenização que recebem, não conseguem adquirir terras na nova capital. O sonhado progresso não chega para essa população", afirma Adriane Garcia. 

 

Censo: dois terços da população era preta ou parda
 
O arraial em 1897 tinha cerca de 2,6 mil habitantes, segundo registro do padre Francisco Martins Dias, autor da obra Descriptivos de Bello Horizonte, lançado em julho de 1897, cinco meses antes da inauguração da nova capital.
 
E é reconstituindo o contexto histórico da fundação da capital mineira, que Adriane Garcia tece em versos a teia de personagens ficcionais que habitavam aquele lugar, sobre os quais não restou memória. "O arraial, ao final do século 19, não era um lugar idílico. Era um lugar de muitos pretos, pardos e pobres, de divisão de classes, pessoas que se sentavam por grupos na igreja, conforme a sua posse", afirma Adriane Garcia. Ela observa que 25 anos antes da construção da capital, no censo de 1872, fica demonstrado que pretos e pardos constituíam dois terços da população local.
 
"Quando vai instalar a capital, quem está dentro do arraial vai sair. Quem está fora e tem posses vai entrar. Então, está substituindo pretos e pardos pelos brancos. É nesse sentido um projeto higienista", afirma a autora, que indaga: "Quem construiu a capital, já sabemos. Mas quero saber dos despejados.

Sem mãos pro trabalho, sem força nas pernas
O velho Tião, no meio da mata
Como perdeu tudo
Se não tinha nada?
Choupana de barro, batido na vara
Caindo aos pedaços, casa de cupim
Comendo farinha, molhada na água
Como perdeu tudo
Se não tinha nada?
Lá vai Tião rumo a Deus sabe quando
Lá vai sem sapatos, que Tião nunca tem
Trouxa de pano, camisa e duas calças
A roupa do corpo e a gamela quebrada
Como perdeu tudo
Se não tinha nada?
O sol escaldante, cavalo nem boi
As terras de Tião eram do coronel?
Que ainda debocha e soa a bravata:
Como perdeu tudo
Se não tinha nada?
 
Sinais de resistência no Arraial

"Pelos registros históricos, a impressão que fica é que quando construíram a capital disseram para as pessoas: vocês têm de sair. E elas foram. Mas houve resistência", diz a autora, que num mosaico de fragmentos encontra inúmeras pistas. Na Revista do Arquivo Público Mineiro, por exemplo, ela pinça a história do jornalista europeu Alfredo Camarate, que, tendo procurado no arraial os serviços de um alfaiate para que lhe fizesse umas calças, dele ouviu a recusa do serviço, com a gentil indicação de outro profissional, que seria "melhor e mais barato".
 
Adriane afirma: "O jornalista achou que tal fôra por tacanhice. Mas eu aposto em resistência: não quis prestar o serviço àqueles que chegavam para desalojá-los". Sobre o episódio, assim escreveu Alfredo Camarate: "E fui-me cismando... na balança da minha consciência, os novos bens que trará a este povo a conquista vertiginosa dos progressos do século e as antigas virtudes patriarcais deste povo, que irão esvaindo nas fórmulas positivas e interesseiras dos povos ultracivilizados. Filósofos e moralistas dirão, uns, que Belo Horizonte ganha, outros, que Belo Horizonte perde!"
 
Sobre a reação dos antigos moradores do Arraial do Curral del Rei face à ameaça do despejo, de fato, não há registro. Nas entrelinhas dos textos da época, a autora garimpa histórias e as transforma em versos, ao estilo de Cecília Meireles, em Romanceiro da Inconfidência:

Josina Rodrigues
A lavadeira
Esperou o último minuto
E botou uma corrente na porta
Segura à corrente, do lado de fora
Josina espera que seu ato
Pare o delegado
O delegado é compassivo
Paralisa os seus homens em fila
E lhe dá mais uma hora
Josina tem uma hora
Para tirar seus pertences
Josina tem 50 minutos
Para carregar o passado
Josina tem meia hora
Para esquecer trinta anos
Josina tem 20 minutos
Para parar de chorar
As filhas de Josina
Socorridas por vizinhos
Há muito estão na carroça
Josina tem 10 minutos
Para trazer seus brinquedos.

"Assim como na Guerra de Canudos, que acontece quase na mesma época, a fundação de Belo Horizonte também se dá sobre uma violenta política higienista. A pergunta que faço: que República é essa que nasce? E temos os mesmos vícios estruturais que são os mesmos que vivenciamos hoje", constata a autora. Para Adriane Garcia, os herdeiros dos antigos moradores do arraial, assim como os seus ascendentes despejados, ocupam hoje as periferias e favelas da capital. "São esses os herdeiros dos despejados", diz.


Texto extraído de: 
https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2019/11/08/interna_pensar,1099299/livro-narra-violento-fim-do-arraial-do-curral-del-rei-e-criacao-de-bh.shtml

Fonte Figuras:
https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2019/11/08/interna_pensar,1099299/livro-narra-violento-fim-do-arraial-do-curral-del-rei-e-criacao-de-bh.shtml


Serra do Curral

 

Por enquanto, temos nosso belo horizonte em grande parte preservado. Para mantê-lo em definitivo, é preciso cultivar a paixão. Para adquiri-la, basta olhar de sua janela a Serra do Curral ao entardecer. De qualquer ponto da cidade, lá está ela, rubra, em brasa, linda. Mais que o ferro, a beleza é sua maior riqueza.


Arte naif

 

Fonte Figura: https://br.pinterest.com/ajurspartes/_created/