quarta-feira, 11 de abril de 2018

(2008) Regional, universal: 100 anos de Guimarães Rosa





















Ao se revisitar a obra de Guimarães Rosa, no ano em que o escritor completaria cem anos, percebe-se a força e atualidade de seus livros. O que faz uma obra de arte ser considerada bela, eterna e sobreviver ao tempo é uma questão com muitas respostas. As hipóteses passam pelas grandes revoluções técnicas como o sfumato de Leonardo da Vinci, a grandeza e a beleza estética de Dante Alighieri ou a espiritualidade de Johann Sebastian Bach.

Suzi Sperber, professora de literatura da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acredita que a atemporalidade da obra de Guimarães Rosa se deve "à extraordinária beleza do texto e forma como ele trabalha com as palavras". Segundo ela, a obra dele nos obriga a abordá-la com a emoção e não com a razão. "Ele quer a derrota da razão. O leitor não é obrigado a ter conhecimentos literários para ser envolvido pelo texto", afirma.

Os contos e romances do autor, na primeira impressão, parecem inacessíveis, mas ao mesmo tempo envolvem o leitor, principalmente através da linguagem poética e uma construção estética consciente do som e ritmo da palavra. Sua linguagem é um "terreno movediço e de limites imprecisos entre a prosa e a poesia", define Cláudia Soares, outra especialista em Guimarães Rosa e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Segundo ela, Rosa produziu uma mistura, partindo de uma dicção de fundo regionalista, acrescentando elementos provenientes de seu amplo conhecimento da língua portuguesa e das outras que conhecia – como arcaísmos, estrangeirismos e neologismos.

Grande sertão: veredas, a obra mais aclamada do autor, é uma auto-narrativa de um jagunço aposentado, que conta a sua história a um viajante, um "doutor", que passa um tempo hospedado em sua fazenda. O registro dessa conversa, no qual só ouvimos a voz do jagunço, reflete e interroga o doutor sobre os acontecimentos vividos, o sentido da existência, paixões e as lutas entre Deus e o Diabo. Cláudia define o livro como sendo "a estória de um homem em sua 'travessia', pela existência, tratando sobre questões que todos temos que enfrentar em nossas próprias travessias".

Um ponto em comum em vários textos de Rosa é o encontro de conceitos e pessoas, numa primeira análise, antagônicas como, por exemplo, o jagunço e o doutor. "Rosa promoveu definitivamente o encontro entre o mundo do doutor e o do sertanejo, entre a cidade e sertão, entre cultura rústica, de base oral, e cultura letrada. Assim, ele emprestou ao sertão significados simbólicos e alargou os seus limites para além das fronteiras geográficas. O sertão se tornou o mundo", reflete Cláudia.

Estudando Rosa é possível perceber que ele era sensível tanto à cultura popular do sertão, como à chamada erudita. Suzi Speber conta que passou um longo período na casa do autor logo após a sua morte. Na biblioteca, a pesquisadora teve acesso aos seus livros e observou suas anotações, grifos e até mesmo trechos que ele escrevia a partir do que lia. "Rosa era muito eclético, lia filosofia japonesa, européia e do oriente chinês. Ele também se interessava por livros de cunho espiritualista e até literatura espiritualista de terceira categoria", conta a pesquisadora.


CULTURA POPULAR 

Publicado em 1956, Grande sertão: veredas foi escrito quatro anos depois de uma famosa viagem do autor pelo interior de Minas Gerais, acompanhando a condução de uma boiada. Rosa anotou exaustivamente dados concretos da realidade física e da cultura sertaneja, e esses registros – suas famosas cadernetas de viagem, que atualmente se encontram no Instituto de Estudos Brasileiros da USP – foram utilizados como matéria-prima que o escritor trabalhou esteticamente para compor os livros. As anotações incluíam dados sobre a flora, a fauna e a gente sertaneja, usos, costumes, crenças, linguagem, superstições, versos, anedotas, canções, casos, estórias, enfim, tudo que lhe despertasse algum interesse.


BUSCA POR SIGNIFICADOS 

A união desses dois universos, do homem que falava sete idiomas e possuía uma vasta cultura, com o apreciador da cultura popular, é, talvez, o traço mais característico de Rosa. Suzi afirma que pôde perceber, nas anotações a que teve acesso, que o autor gostava de conversar com as pessoas mais humildes. "As pessoas que não tiveram instrução, procuram palavras para exprimir aquilo que experienciam, criam novas palavras, imagens, ou transformam outras que conhecem, mas não sabem o que significa. Essas pessoas humildes abriram o caminho para que Rosa partisse nessa busca por novas palavras e imagens", conclui.


 O texto coloca esses dois mundos, o popular e o erudito, em condição de igualdade e comunhão. Suzi lembra, como exemplo, o conto "São Marcos", do livro Sagarana, em que a trama envolve um doutor que trabalhava numa cidade pequena que tinha um curandeiro. E esse médico caçoava do segundo, até um dia em que ele perde a visão. O feiticeiro consegue devolver-lhe a visão, mas quando o doutor abre os olhos, ele vê nas mãos de seu curador um boneco com uma agulha espetada nos olhos. E daquele dia em diante, ele decide compactuar com o curandeiro. Cláudia Soares conclui que "neste ‘doutor’ que viaja pelo sertão, Rosa, que era médico e atendeu em cidades do interior, se reproduz".

Já para Suzi Sperber, "há muitas camadas de sentido, complexas, diferentes e de origens muito diferentes, que são perceptíveis exatamente a partir desse trabalho de linguagem que ele fez". Para a pesquisadora a obra de Guimarães Rosa seria como um palimpsesto, em que se raspa a tela de uma pintura e surge outra camada, que se raspada permite enxergar nova camada. "O texto de Rosa tem sempre mais camadas, você não encontrará uma análise que irá resultar em uma conclusão final, pois sempre haverá outra. Tem mil facetas. O fascínio é extraordinário", conclui.





Fonte:
http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252008000200028
Fonte das Imagens:
http://sinprominas.org.br/noticias/extra-classe-no-sertao-guimaraes-rosa/
https://www.literar.com.br/lexico-guimaraes-rosa/
https://www.instagram.com/p/BNp5Xf1BZEw/

(Abr 2017) Literatura e comunidades inspiram caminhada pelo sertão mineiro



A obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, é a inspiração para um grupo de caminhantes que irá percorrer a pé 178 km do sertão mineiro, no próximo mês de julho. E você está convidado. Em sua 4a edição, a jornada socio-eco-literaria “O Caminho do Sertão – de Sagarana ao Grande Sertão Veredas” vai promover um mergulho de oito dias na rica região do cerrado de Minas Gerais, que atualmente vive questões como a crise hídrica ou a ostensiva expansão agropecuária.

Percorrendo parte do percurso retratado em Grande Sertão: Veredas, no norte e noroeste de Minas Gerais, os participantes terão a oportunidade de conhecer culturas, comunidades tradicionais, povoados, assentamentos de reforma agrária e grandes fazendas do agronegócio; saberes e fazeres dos habitantes locais; histórias do povo sertanejo; refletir sobre a crise hídrica; e fazer uma jornada existencial.


 As inscrições para a caminhada estão abertas até o dia 30 de abril. Interessados devem ler e preencher o edi-TAO de participação, explicando o porquê do envolvimento com o tema. Cinquenta candidatos serão selecionados. A caminhada acontece entre 8 e 16 de julho.

A jornada pelo sertão mineiro, que nas três primeiras edições (2014, 2015 e 2016) fez um apelo para a questão socioambiental com o mote “Pelo cerrado e suas Culturas, de pé!”, nesta edição agrega ainda outro tema: os 120 anos do massacre de Canudos e a reflexão sobre as trajetórias ou caminhos populares interrompidos ao longo da história republicana do país.

O roteiro parte do distrito de Sagarana, no município de Arinos-MG, para chegar à cidade de Chapada Gaúcha. Em Sagarana, primeiro assentamento de reforma agrária da região, implantado na década de 1970, está situada a Reserva Biológica de Sagarana, onde ocorre periodicamente o Festival “Sagarana: Feito Rosa para o Sertão”. Não distante dali está Chapada Gaúcha, cidade sede do Parque Nacional do Grande Sertão Veredas e onde ocorre todo mês de julho o “Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas”.


Estão ainda no caminho o rio Urucuia (rio do amor), o Ribeirão de Areia, o Vão dos Buracos e o Liso do Sussuarão, suposto deserto do Grande Sertão: Veredas, percorridos pelo protagonista Riobaldo e seu bando.



Fonte:
http://viajarverde.com.br/caminhada-pelo-sertao-mineiro/

Bumba Meu Boi concorrerá ao título de Patrimônio Cultural da Humanidade


Considerado Patrimônio Cultural do Brasil desde 2011, o Bumba Meu Boi, expressão emblemática do Maranhão, está mais próximo de ganhar uma nova distinção: o status de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Hoje, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) entregou ao Ministério das Relações Exteriores a candidatura do Bumba Meu Boi para concorrer ao novo título, que é conferido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Com esse passo, a previsão é de que a decisão sobre a inclusão do Bumba Meu Boi na lista de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade seja anunciada já no começo do próximo ano. Segundo a presidente do Iphan, Kátia Bogea, a própria fundamentação documentada em forma de dossiê exigiu que os profissionais designados para a tarefa se voltassem à diversidade artística dessa manifestação.

Fazem parte do Bumba Meu Boi a brincadeira, a música, a dança e as artes cênica e plástica. A versão final do dossiê, que será enviado a Paris, acabou sendo composta por dois vídeos – um que aborda o que é o Bumba Meu Boi e outro só de depoimentos. Também foi desenvolvida uma pesquisa que detalha os elementos e reconta a história dessa arte desde os primórdios. 

“Ele [o Bumba Meu Boi] estava em todos os livros de registro, envolve tudo. Desde aquele primeiro momento, a gente percebia a diversidade e a complexidade dessa manifestação. Eu tenho certeza absoluta de que, pela beleza, por tudo que o boi representa, é uma manifestação que é a cara do Brasil, um país tão diverso”, disse Kátia. 


CULTURA POPULAR


Somente no Maranhão, o Bumba meu boi é difundido por mais de 400 grupos, em 79 municípios. No estado, que segundo Kátia “respira” e é “totalmente contaminado” diante das primeiras notas dos instrumentos, a manifestação é dividida em cinco estilos principais, conhecidos como sotaques: Matraca, Orquestra, Zabumba, Baixada e Costa-de-mão.

 “Você poderia fazer milhões de recortes no boi. O boi de Orquestra não tem nada a ver com o de Matraca, que não tem nada a ver com o Costa-de-mão. É uma diversidade tão grande, não só de coreografias, de musicalidade, religiosidade – tem os bois dos encantados, tem o boi ligado aos terreiros, tem o ligado à religião católica, o dos festejos de Minas Gerais. O boi é batizado, depois morre, ressuscita. O ano inteiro, esse ciclo do boi, que é a própria vida da gente”, completou.

Segundo Kátia, que é historiadora, maranhense e funcionária do instituto há 38 anos, para o povo de seu estado natal, o boi “é uma questão muito séria, que traduz a própria vivência das pessoas”. “A gente fala até em sociologia do boi, antropologia do boi.” Em outros pontos do país, como na região Sudeste, por exemplo, o Bumba Meu Boi muda de nome para Boi Pintadinho. Em Santa Catarina, se chama Boi de Mamão.

Fascinado pelo Bumba Meu Boi desde os 8 anos, o servidor do Banco Central Tarquínio Costa Cardoso, participante do Meu Boi do Maracanã, do Maranhão, e Seu Teodoro, de Brasília, disse considerar “sagrada” a alegoria do animal. Cardoso, que é integrante dos grupos há mais de 30 anos, acredita que o status, se concedido pela Unesco, trará mais condições de o trabalho ser divulgado e um orçamento menos apertado para o desenvolvimento das atividades. Foi por se envolver desde pequeno com o Bumba Meu Boi que ele chegou aos 65 anos sabendo tocar pandeiro, tambor-de-onça e matraca.


UNESCO


Caso o comitê responsável pela definição dê um parecer favorável, o Brasil passará a ter cinco bens reconhecidos sob a classificação, junto a Arte Kusiwa – Pintura Corporal e Arte Gráfica Wajãpi (2003), o Samba de Roda no Recôncavo Baiano (2005), o Frevo: expressão artística do Carnaval de Recife (2012), o Círio de Nossa Senhora de Nazaré (2013) e a Roda de Capoeira (2014).

 “É um momento muito importante para que as pessoas respeitem a cultura afrobrasileira e não torçam o nariz para ela”, afirmou o presidente da Fundação Palmares, Erivaldo Oliveira da Silva, também otimista com a possibilidade de ampliação de recursos destinados ao Bumba Meu Boi. 

Silva ressaltou a sensibilidade do Iphan de legitimar o valor da cultura popular ao selecionar uma expressão de matriz africana para concorrer ao título, como anteriormente feito com o samba e a capoeira. Conforme explicou Kátia Bogea, o Iphan pode submeter somente uma única candidatura por ano e a escolha teve princípio em agosto de 2011.



Fonte:
http://brasiliadefato.com.br/cultura-e-entretenimento/2018/04/bumba-meu-boi-concorrera-ao-titulo-de-patrimonio-cultural-da-humanidade/

Cultura Popular: uma visão antropológica


Por Marco Oliveira

          A miscigenação racial no Brasil, de forma distinta, pelo negro, o branco, o índio, antevê a possibilidade de que a identidade sociocultural do povo brasileiro foi sem dúvida, a condição suprema para a nossa formação, principalmente no conjunto de valores culturais tão importantes e que marcam a nossa condição histórica, inclusive, no seu fundamento à homogeneidade cultural e lingüística.


          Muito antes da sua emancipação política e administrativa em idos de 1912, o município de Pirapora era habitado por indígenas da Tribo Cariri, que viviam da pesca abundante e da caça. Tanto o é, que o topônimo pira (salto), poré (peixe), ou “onde o peixe salta” representa através desta raça, a pujança do lugar.

          Contudo, vale salientar que Pirapora, motivada pela “saudosa” navegação do Rio São Francisco, sofreu uma grande intervenção sociocultural, enfaticamente de nordestinos, na sua maioria retirantes e aventureiros que procuravam terras férteis e prosperidade econômica satisfatória.

          Esses grupos dentro do contexto das relações sociais representam os estudos etnológicos, feitos por pesquisadores que acima de tudo, procuram desenvolver com exatidão não só o teor antropológico dos indígenas, como a própria formação do nosso povo, de forma sistematizada e generalizada, ou seja, através da análise e interpretação sucinta da nossa história singular.

          Mas, o que vem a ser a cultura popular? Segundo o Professor Antônio Henrique Weitzel da UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora, a cultura popular é tida como “...a cultura associada ao povo, ou seja, ao contrário da cultura erudita, não está ligada ao conhecimento científico, mas como parte integrante o conhecimento vulgar ou espontâneo, o popular senso comum. Considerada também como arte do povo, o tipo de linguagem acontece como uma espécie de luta pela sobrevivência e pode ser de massa ou tradicional”.

          Mas, o homem começou a se desenvolver culturalmente através das suas necessidades básicas, como o alimento para saciar-lhe a fome e o abrigo do corpo. Para fins didáticos, pode-se afirmar que a cultura nasceu com o homo sapiens.

          Nesse prisma, os grupos humanos se expandiram progressivamente, ocupando praticamente a totalidade dos continentes do planeta, a partir de uma origem biológica comum. O desenvolvimento dos grupos humanos se fez segundo ritmos diversos e modalidades variáveis, não obstante a constatação de certas tendências globais.

          Todavia, não devemos hierarquizar a cultura, até porque não há como conceber que haja uma cultura superior. Há culturas diferentes, não havendo nenhuma distinção quanto às suas características em face à realidade cultural de um povo ou de um grupo humano.

          Sendo a cultura a dimensão do processo social, é imprescindível que cada realidade cultural tenha sua lógica interna, sendo necessário relacionar a variedade de procedimentos culturais com os contextos em que são produzidos.

          A contribuição  no estudo das culturas advém da construção do fundamento histórico, seja como concepção ou como dimensão do processo social, sendo a cultura um produto coletivo da vida humana.

          E a tradição, como se aplica nesse contexto? Ora, a falsa idéia que se tem, é que a tradição é tudo aquilo que é velho e/ou antigo, mas esse é um conceito falso, vez que é aquilo que está sendo entregue ou transmitido, ou seja, a herança cultural, passada de uma geração pra outra, as crenças e técnicas.

          A cultura se divide em dois grupos distintos: a cultura de massa e cultura tradicional. A cultura de massa é aquela, onde as instituições dominantes têm de prover, e até mesmo criar as necessidades de multidões e de seus participantes anônimos, da mesma forma que desenvolvem mecanismos eficazes para controlar essas massas humanas, já a cultura tradicional, é tida como aquela que temos a necessidade de conhecê-la profundamente, dando-a a importância devida, até porque, representa a sabedoria de um povo, a sabedoria vulgar, ou a pedagogia da experiência, sendo regional e universal ao mesmo tempo.

          Na cultura popular reside a maior fonte de sabedoria do homem, do povo, é através dela, que iremos nortear e encontrar os fatos folclóricos ou manifestações folclóricas.

          O fato folclórico, por sua vez, compreende as maneiras de pensar, sentir e agir de um povo, preservados pela tradição popular e pela imitação, dedicado à renovação e conservação do patrimônio histórico científico humano ou afixação de uma orientação religiosa ou filosófica. Sendo caracterizado face aos aspectos tradicional, funcional, vulgar ou popular, espontâneo, anônimo e oral, bem como a sua aceitação coletiva.

          São os diversos agrupamentos das espécies folclóricas, tendo em vista o seu futuro aproveitamento nas escolas, tais como: a literatura oral e linguagem popular; música folclórica; festas populares; recreação: arte, artesanato e técnicas populares; medicina popular; religiões, crendices e superstições; usos e costumes e alimentação.

          Porque citei Pirapora? Como um amante e estudioso da história local, e profundo conhecedor das raízes culturais do Alto Médio São Francisco, posso reafirmar a importância da cultura popular num contexto sociocultural e humano da nossa gente.

          Danças como o “Carneiro”, “Gamba”, “Lundu”, “Marujada”, e manifestações de louvor, como as “Folias de Reis” e “São Gonçalo”, além das lendas, mitos, contos, fábulas, parlendas, ciranda e causos, e claro o nosso artesanato em madeira, com destaque para as “carrancas”, dentre outras peças de renomado valor, representam a singularidade da nossa tradição, que vem sendo cultivada pelos ribeirinhos como uma rica demonstração da nossa potencialidade.



Fonte:
https://www.recantodasletras.com.br/artigos/803875
Fonte imagem:
http://www.agenciaminas.mg.gov.br/noticia/exposicao-bordado-reinventado-marca-dia-do-artesao-no-centro-de-arte-popular-cemig

Cultura popular: sua diversidade e importância



Nada é mais incisivo como marcador da identidade de um povo do que a cultura em que este povo mesmo se define. Sem ela, tal identidade simplesmente desaparece, dissolve-se, deixando ali, como consequência, uma amorfa massa humana. Daí ser imperativo o reconhecimento, incentivo e preservação da cultura popular de forma que as gerações futuras sintam-se não só herdeiras, mas também valedoras de gigantesco e precioso tesouro.

São elementos constitutivos da cultura popular os ritos, mitos, símbolos, folclore, todas as crenças, em suma, tudo aquilo que foi criado e conservado por aqueles que existiram antes nós. É o que forma nossa autoconsciência e o que permite que nos reconheçamos no lugar e pertença de nosso povo. Ademais, é sempre bom lembrar que é no ventre dos guetos, nas camadas pobres e interioranas que brotam as mais duradouras e valorosas manifestações dessa cultura.


 Não obstante o advento da globalização, que visa “derrubar” fronteiras e mundializar os espaços geográficos, algumas regiões brasileiras procuram preservar costumes e tradições. Sendo um país de dimensão continental e tendo como base principal da formação de seu povo o europeu, o negro e o índio, e com a chegada mais tarde dos japoneses, italianos, alemães e árabes, é natural haver no Brasil enorme variedade de culturas. Assim sendo, a pletora de culinárias, danças, religiões e festas, que caracterizam cada região do país, desenha, no conjunto, um complexo painel cultural.

As celebrações e festas populares como o Círio de Nazaré e o festival de Parintins no Norte; O bumba meu boi, o maracatu, o caboclinho e o frevo no Nordeste; as cavalhadas, a procissão do fogaréu, o caruru e os deliciosos pratos com os peixes do Pantanal destacam-se no Centro-Oeste; a Festa do divino, festejos da Páscoa e dos santos padroeiros, a peregrinação a Aparecida e o carnaval são marcas do Sudeste; com forte influência dos italianos, espanhóis, portugueses e alemães, o Sul nos dá a festa da uva (cultura italiana), a oktoberfest (cultura alemã), o fandango (influência portuguesa e espanhola), o pau de fita e congada; da culinária sulista, o churrasco e o famoso chimarrão, pirão de peixe, marreco assado e o bom vinho encerram essa síntese cultural brasileira.

Como se vê, nossa riqueza material e imaterial é de dimensão oceânica, o que impõe um incansável exercício de sua defesa e preservação. Todos, exatamente todos devemos cuidar de tal riqueza, pois é nela que estão resguardados os valores tão caros a nosso povo. Por outro lado, não bastam políticas públicas para este fim, é importante entender que a exacerbada valorização da cultura de massa, pautada no efêmero e no modismo de ocasião promove a nefasta confusão demoníaca, capaz de sepultar o que é sólido, perene e possuidor de real valor.



Fonte:
https://trendr.com.br/cultura-popular-sua-diversidade-e-import%C3%A2ncia-96446407feec

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Interesse moderno pelo folclore: nação e cultura no Mapa Musical do Brasil da gravadora Marcus Pereira


Artigo na íntegra, acessar http://journals.openedition.org/aa/297#tocto1n1



As décadas de 1960 e 1970 foram marcadas por debates acirrados no campo da chamada “Música Popular Brasileira”, que consolidava suas bases estética, ideológica e mercadológica. A MPB era então considerada um campo privilegiado para debates sobre a nacionalidade e a formação de uma cultura e de uma consciência nacionais modernas. Muita energia foi direcionada às tentativas de resolução de um “impasse” relativo aos caminhos de construção de uma canção capaz de traduzir e de mobilizar os brasileiros em torno de um projeto de nação. A incorporação por músicos e compositores brasileiros de elementos estéticos estrangeiros, sobretudo a influência de gêneros musicais norte-americanos como o jazz e o pop, era condenada por muitos como atitude alienante, e valorizada por outros como inovações fundamentais no desenvolvimento de uma “linha evolutiva”. 

Nesse contexto, a própria denominação desse gênero de música, com a dupla adjetivação de “popular” e “brasileira”, evidencia que a música midiatizada (formatada e difundida pela indústria fonográfica e do entretenimento) era considerada meio fundamental para mobilizar ideias e sentimentos de nacionalidade.

O presente trabalho versa sobre uma resposta construída a partir dessa tensão: o “Mapa Musical do Brasil”, um projeto de coleta, adaptação e mapeamento de gêneros musicais realizado pela gravadora Discos Marcus Pereira entre 1972 e 1976. Uma vez que a nação existe fundamentalmente enquanto representação, o interesse moderno pelo folclore enquanto “comunidade imaginada”, como diz Benedict Anderson (1989), apresento aqui uma análise da imagem de nação e da ideia de  nacionalidade brasileira articuladas na produção do Mapa.

“Mapa Musical do Brasil” foi o nome dado pela gravadora ao conjunto de quatro coleções de discos concebido entre 1972 e 1976: Música Popular do Nordeste (1972), Música Popular do Centro-Oeste/Sudeste (1974), Música Popular do Sul (1975) e Música Popular do Norte (1976), cada uma contendo quatro Lps acompanhados por textos e fotografias.1 Vale ressaltar que as coleções não apresentam qualquer ilustração cartográfica, seja do território nacional ou das regiões em questão. O termo “mapa” sugere uma apreensão abrangente das manifestações culturais brasileiras divididas por regiões geográficas e acaba por vincular as noções de território e cultura, preciosas às ideologias nacionalistas.

O Mapa traz estilos musicais “tradicionais” ou “folclóricos” considerados representativos de uma cultura nacional “autêntica” e diversificada – como frevo, fandango, modinhas, moda de viola, samba, samba de roda, cirandas, folia de reis, folia do Divino, cantos de religiões afro-brasileiras, carimbó, bumba meu boi, boi-bumbá, variedades de poesia popular, milonga, cururu, catira, tambor de crioula etc. Uma parte disso é composta de gravações de músicos “folclóricos” das diversas regiões do país. A outra é de reinterpretações feitas em estúdio por intérpretes profissionais – como Nara Leão, Elis Regina, Quinteto Violado, Clementina de Jesus, Renato Teixeira e Papete.

A Discos Marcus Pereira, sediada em São Paulo, funcionou do final de 1973 a fevereiro de 1981, deixando um acervo de aproximadamente 140 títulos. Samba, choro, música erudita de compositores brasileiros, MPB e música “folclórica” integram quase a totalidade desse catálogo. Atenho-me aqui à análise dos processos de produção das coleções do Mapa, que tinham o propósito de sensibilizar os ouvintes para a criatividade musical do povo, visto como fonte criadora de uma cultura verdadeiramente nacional.

Download dos Discos Marcus Pereira:
http://armazemmemoria.com.br/discos-marcus-pereira/


Fonte:
http://journals.openedition.org/aa/297#tocto1n1

sexta-feira, 6 de abril de 2018

A Cultura Popular


CULTURA POPULAR é o conjunto formado por todas as formas de expressão de um povo: fala, gestos, festas, literatura, música, dança, lendas, crenças, manifestações religiosas e artesanato, entre outras. Apesar de estar em constante transformação, essa cultura conserva tradições que são passadas de geração em geração e que funcionam como uma memória coletiva, revelando o imaginário das diferentes comunidades. 




No caso do Brasil, a cultura popular reflete a própria miscigenação racial do país, incorporando influências de diversos povos, principalmente europeus, africanos e indígenas. Entre as principais formas de expressão artística do cotidiano brasileiro, as festas populares podem ser consideradas um dos núcleos centrais, já que nelas encontramos danças, folguedos, ritmos e instrumentos musicais característicos. Além das festas, as lendas, os mitos e o artesanato também revelam aspectos típicos de cada região.